Queda de natalidade, sobrecarga, culpa: como mulheres lidam com o ter ou não ter filhos

BATANEWS/FOLHA


Mulher carrega criança no Museu Nacional de Arte, em Pequim, na China - Wang Zhao/AFP

Nesta semana, três textos publicados pela Folha abordam a maternidade a partir de perspectivas profundamente distintas. A colunista Vera Iaconelli reflete sobre como a decisão de ter filhos deve partir de uma análise cuidadosa do “rojão” que representa criá-los. Já na China, a correspondente Victoria Damasceno mostra que, mesmo após o fim da política do filho único, o país registrou um recorde de queda na taxa de natalidade. Por fim, uma reportagem da BBC Brasil apresenta o outro lado da questão: o que acontece quando não há escolha possível? As mulheres ouvidas relatam como aprenderam a conviver com a ideia de não conseguir engravidar.

Como indicam os dados chineses, cada vez mais mulheres têm dito não à maternidade — e as políticas públicas de incentivo ao aumento do número de filhos não parecem surtir efeito. Parte da resposta está no dilema apontado por Iaconelli: quantas pessoas estão dispostas a arcar com o ônus físico, emocional e financeiro de criar filhos?

No Brasil, a tentativa de ampliar a licença-paternidade, embora louvável, ainda não se concretizou e, mesmo se aprovada, seria insuficiente. O texto que deve tramitar neste ano no Senado propõe aumentar de cinco para 20 dias o período de afastamento dos pais. As mães, por sua vez, continuam com direito a 120 dias, conforme a CLT. A mudança mantém a desigualdade na divisão do cuidado reprodutivo. Em países como Alemanha e Suécia, o modelo adotado é o da licença-parental, em que a família decide como distribuir o tempo de afastamento. Além de mais equilibrado, esse formato é mais inclusivo para diferentes configurações familiares, como casais homoafetivos.

A reprodução, além disso, segue sem reconhecimento como trabalho produtivo. A atual obsessão de governos ao redor do mundo com a queda da natalidade revela o quanto gerar novos cidadãos — e futuros trabalhadores — é vital para a economia global. Ainda assim, o trabalho doméstico e de cuidado continua sem o mesmo status do trabalho assalariado.

Na Argentina, um avanço importante havia sido alcançado ao reconhecer o tempo dedicado ao cuidado dos filhos no cálculo da aposentadoria, mas a medida foi encerrada em 2025 pelo presidente Javier Milei. Paralelamente, quando a maternidade é biologicamente inviável, mulheres que desejavam ser mães enfrentam cobranças e expectativas sociais. O discurso de que é preciso “relaxar” para engravidar transfere a culpa às tentantes, sem respaldo científico. Um estudo publicado em 2018 por pesquisadores da Universidade Stony Brook, nos Estados Unidos, demonstrou que não há diferença significativa no sucesso de tratamentos de fertilidade entre mulheres que relataram estresse, ansiedade ou depressão durante o processo.

O que une todas essas histórias não é apenas a maternidade em si, mas as condições sob as quais ela é desejada, recusada ou negada. Seja pela sobrecarga do cuidado, pela ausência de políticas públicas ou pela culpabilização diante da infertilidade, a reprodução segue tratada como uma escolha privada — ainda que suas consequências sejam profundamente coletivas.

Narges Mohammadi (1971)
Na semana passada, a newsletter também destacou o papel das mulheres nos protestos iranianos. Narges Mohammadi é uma das principais vozes da luta pelos direitos humanos e pela igualdade de gênero no Irã. Vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2023, ela foi presa novamente em dezembro do ano passado, pouco antes do início de uma nova onda de manifestações. Em março de 2025, Mohammadi afirmou que as mulheres derrubariam a teocracia instaurada no país desde 1979. Detida mais de dez vezes ao longo da vida, ela permanece como uma das principais apoiadoras do movimento “Mulheres, Vida, Liberdade”, surgido após a morte de Mahsa Amini, em 2022.