Namoro com a IA: o que diz a ciência sobre esse tipo de relacionamento

Personagens gerados por inteligência artificial já conseguem despertar sentimentos de intimidade e paixão; veja sinais de alerta

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Amor e IA: evolução dos companheiros digitais exigirá novas investigações sobre dependência emocional, vínculos afetivos mediados por tecnologia e os limites éticos do design desses sistemas (Alvaro Leme/Midjourney/Reprodução)

Você acha que a ideia de se apaixonar por uma linha de código pertence apenas ao roteiro do filme Ela, estrelado por Joaquin Phoenix? Vale observar o que está acontecendo no feed da geração Z. Os namorados virtuais e os chatbots afetivos saíram do nicho nerd e se transformaram em um mercado de massa. A ciência ajuda a explicar esse fenômeno: nosso cérebro, no fundo, pode ser bastante suscetível a esses estímulos.

Não evoluímos para diferenciar perfeitamente um rosto digital de uma pessoa real quando a interação ocorre por meio de imagens e vozes altamente realistas. Se há feições humanas e uma voz cativante, tendemos a responder como se estivéssemos diante de uma pessoa de verdade.

Personagens gerados por inteligência artificial já conseguem despertar sentimentos de intimidade e paixão comparáveis e, em alguns casos, superiores aos provocados por pessoas reais. É o que aponta um estudo publicado na revista científica Frontiers, que investigou como jovens da geração Z avaliam potenciais parceiros românticos humanos e virtuais. 

Apesar do envolvimento afetivo observado, os pesquisadores concluíram que dimensões consideradas centrais para relacionamentos duradouros, como confiança e compromisso, continuam sendo atribuídas principalmente aos seres humanos. 

O estudo avaliou 134 jovens entre 17 e 24 anos que assistiram a vídeos curtos de potenciais parceiros representados por quatro perfis distintos: anime 2D, desenho animado 3D, personagem altamente humanoide e pessoa real. 

Em seguida, os participantes responderam a questionários sobre confiança, intimidade, paixão e compromisso. Os resultados mostraram que os alvos humanos receberam as maiores avaliações em confiança e compromisso, independentemente do gênero dos participantes. 

Por outro lado, as respostas emocionais apresentaram diferenças relevantes. Entre as mulheres, personagens de anime 2D despertaram níveis mais elevados de intimidade do que pessoas reais. Entre os homens, personagens altamente humanoides geraram índices significativamente maiores de paixão, superando inclusive os alvos humanos. 

Relacionamentos humanos exigem investimento emocional. Envolvem o risco da rejeição, a ansiedade do primeiro encontro e a necessidade de lidar com as imperfeições do outro.

A IA elimina grande parte dessa fricção. Ela oferece validação constante, paciência aparentemente infinita e disponibilidade 24 horas por dia, sete dias por semana. É um ambiente atraente para quem busca os benefícios do afeto sem os desafios que costumam acompanhá-lo. 

As IAs são programadas para simular afeto, inteligência emocional e conversas naturais, permitindo a personalização de traços de personalidade, aparência física e preferências. Enquanto confiança e compromisso permanecem fortemente ligados à percepção de humanidade, sentimentos como intimidade e paixão mostraram-se mais suscetíveis às características dos personagens virtuais. 

O estudo da Frontiers discute que a evolução dos companheiros digitais exigirá novas investigações sobre dependência emocional, vínculos afetivos mediados por tecnologia e os limites éticos do design desses sistemas. 

A principal mensagem da pesquisa é que os relacionamentos entre humanos e IA não devem ser analisados de forma simplista. Existem dimensões emocionais que parecem mais permeáveis à tecnologia do que outras.

Com a rápida evolução desses sistemas, compreender esses mecanismos será fundamental para que o desenvolvimento da inteligência artificial aconteça de forma responsável e alinhada ao bem-estar psicológico das pessoas. 

Se você está em dúvida se a sua relação, ou a de alguém próximo, com a tecnologia ultrapassou limites saudáveis, a recomendação é observar quatro comportamentos:

A inteligência artificial não vai desaparecer e demonizá-la não resolve o problema. Ela pode ser um suporte importante para a rotina, mas a ciência nos lembra que a tecnologia deve servir para fortalecer conexões humanas e não para nos poupar dos desafios inerentes às relações entre pessoas.

*Maurício Okamura, psiquiatra e coordenador de saúde mental da Rede Total Care