Saúde
Câncer de ovário: os exames que estão redefinindo o tratamento
Para esta doença, o futuro do cuidado depende justamente da integração entre patologia, oncologia e biologia molecular
BATANEWS/VEJA
O câncer de ovário ilustra como a medicina deixou de enxergar o câncer apenas pelo órgão onde ele surge e passou a olhar para a biologia de cada tumor. Durante décadas, o câncer de ovário foi tratado quase como uma única doença. Mulheres com diagnósticos semelhantes recebiam terapias parecidas, apesar de apresentarem tumores biologicamente distintos.
Hoje, a medicina de precisão mudou esse cenário. O avanço da genômica e dos biomarcadores transformou a forma de entender a doença e abriu caminho para tratamentos cada vez mais personalizados.
Uma das grandes mudanças foi compreender que o câncer de ovário não constitui uma entidade única. Estudos como o The Cancer Genome Atlas (TCGA) demonstraram que tumores aparentemente semelhantes ao microscópio podem apresentar alterações genéticas completamente diferentes, com impacto direto na resposta terapêutica.
A caracterização morfológica clássica continua sendo o primeiro passo essencial, pois é a partir dela que se define o subtipo histológico e se orienta toda a investigação molecular subsequente.
Por trás dessa transformação está um profissional que deixou de atuar apenas nos bastidores: o patologista. Tradicionalmente associado apenas à confirmação diagnóstica, esse especialista hoje exerce papel decisivo na medicina de precisão. É o patologista quem avalia a qualidade da amostra tumoral, define o subtipo histológico, seleciona o material adequado para os testes moleculares e integra informações morfológicas, imuno-histoquímicas e genéticas em um laudo capaz de direcionar a escolha terapêutica.
Na prática, isso significa que o laudo anatomopatológico deixou de ser apenas descritivo. Ele passou a reunir informações acionáveis, fundamentais para a decisão clínica.
Diretrizes internacionais atualmente recomendam a avaliação de biomarcadores em pacientes com câncer epitelial de ovário, considerando não apenas seu impacto na seleção de tratamentos mais personalizados, mas também as implicações para a identificação de risco hereditário e o aconselhamento de familiares.
Sua identificação depende da adequada seleção, coleta e preparo do material, bem como da avaliação da qualidade do tecido analisado. Essas etapas são fundamentais para a confiabilidade dos testes moleculares e contam com atuação central do patologista na escolha e validação da amostra que será utilizada para a análise dos biomarcadores.
A incorporação desses biomarcadores revolucionou o tratamento do câncer de ovário ao permitir terapias direcionadas, desenvolvidas para atuar em alterações específicas do tumor.
Pacientes com mutações em BRCA1/2 ou deficiência de recombinação homóloga (HRD), por exemplo, passaram a se beneficiar dos inibidores de PARP, medicamentos que mudaram o cenário da doença avançada ao prolongar significativamente o controle tumoral.
Mais recentemente, a expressão do receptor de folato alfa (FRα) abriu caminho para novas estratégias terapêuticas levando ao desenvolvimento de um anticorpo droga-conjugado que mostrou benefício clínico em pacientes com câncer de ovário resistente à platina e com alta expressão de FRα (igual ou superior a 75%), reforçando o valor dos biomarcadores e a necessidade de testes adequadamente interpretados.
No câncer de ovário, o futuro do cuidado depende justamente dessa integração entre patologia, oncologia e biologia molecular. Da qualidade da amostra coletada à interpretação dos testes moleculares, cada etapa influencia a possibilidade de oferecer terapias mais eficazes e personalizadas.
Em outras palavras, não existe oncologia de precisão sem patologia de precisão. E quem mais se beneficia desse avanço é a paciente, que passa a ter uma jornada diagnóstica e terapêutica cada vez mais individualizada e assertiva.
*Louise De Brot é líder do departamento de Anatomia Patológica do Hospital A.C.Camargo Cancer Center




