Menos milho no estoque, mais soja disponível: o que mudou no mercado dos grãos

USDA projeta estoques americanos de milho em 41,98 milhões de toneladas e produção de soja em 122,99 milhões; no Brasil, câmbio e prêmios definem o impacto sobre os preços.

BATANEWS/OPR


Foto: R.R.Rufino

Os dados de oferta e demanda divulgados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em agosto colocaram milho e soja em situações distintas no mercado internacional. Enquanto o balanço do milho ficou mais apertado, com redução dos estoques projetados e da relação entre estoques e consumo, a soja continua pressionada pela oferta e depende de uma recuperação da demanda para sustentar uma alta mais consistente.

No milho, as exportações americanas maiores e a redução dos estoques diminuíram a margem de segurança do mercado. Na soja, a revisão da produtividade não foi suficiente para reduzir a produção dos Estados Unidos, já que o aumento da área colhida compensou a queda no rendimento.

Para o mercado brasileiro, porém, o comportamento das bolsas internacionais não se traduz automaticamente em preços maiores ou menores ao produtor. Câmbio, prêmios de exportação, demanda doméstica e ritmo das exportações também entram na formação das cotações.

Na soja, o USDA revisou a produtividade americana de 59,40 para 59,07 sacas por hectare. Apesar da redução, a área colhida aumentou 1,7%, para 34,72 milhões de hectares. O resultado foi uma produção estimada em 122,99 milhões de toneladas, acima das 121,8 milhões de toneladas projetadas pelo mercado.

Engenheira de produção Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro: “O que trava a soja hoje é demanda. O esmagamento maior sustenta farelo e óleo, mas não resolve o excedente de grão que precisa sair dos Estados Unidos” – Foto: Divulgação/Biond Agro

Os estoques finais foram estimados em 8,71 milhões de toneladas. Ao mesmo tempo, a previsão de importações chinesas permaneceu em 115 milhões de toneladas, sem aumento que pudesse compensar a maior disponibilidade do grão nos Estados Unidos.

É justamente essa relação entre oferta e demanda que limita o potencial de valorização da soja no curto prazo. “O que trava a soja hoje é demanda. O esmagamento maior sustenta farelo e óleo, mas não resolve o excedente de grão que precisa sair dos Estados Unidos”, afirma a engenheira de produção Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro.

A produção brasileira de soja para a safra 2026/27 permanece projetada em 186 milhões de toneladas. Com a oferta americana maior, o mercado passa a depender de sinais mais fortes de consumo, principalmente da China, ou de perdas relevantes nas lavouras dos Estados Unidos para alterar de forma mais significativa o balanço global.

A manutenção da projeção de importação chinesa em 115 milhões de toneladas é particularmente relevante porque a China é o principal comprador mundial de soja. Sem crescimento das compras, o aumento da disponibilidade americana tende a manter maior pressão sobre os preços.

O cenário é diferente no milho. Para 2025/26, o USDA elevou a previsão de exportações americanas de 84,46 milhões para 86,36 milhões de toneladas. Ao mesmo tempo, os estoques de passagem foram reduzidos de 51,31 milhões para 49,40 milhões de toneladas.

Para 2026/27, a projeção é de 41,98 milhões de toneladas de estoques finais, queda de 7,65% em relação à estimativa anterior.

A produção americana continua elevada, estimada em 406,75 milhões de toneladas. O ponto de atenção, portanto, não está na falta de produção, mas na quantidade que permanecerá disponível depois de considerados consumo e exportações.

A relação estoque/uso dos Estados Unidos caiu de 11,01% para 10,12%. Embora a diferença pareça pequena em termos percentuais, ela representa uma redução da margem de segurança do mercado. “A relação estoque/uso americana saiu do cenário mais confortável e entrou em patamar justo, e assim o mercado começa a precificar risco: com pouco colchão, qualquer problema de clima ou surpresa de demanda gera reação de preço desproporcional ao tamanho do dado”, explica Isabella.

Com estoques menores, eventuais perdas de produtividade ou aumento das exportações passam a ter maior potencial de impacto sobre as cotações. O mercado, portanto, fica mais sensível às próximas informações sobre clima, produção e consumo.

Os fundamentos internacionais são apenas uma parte da formação dos preços no Brasil. No milho, o mercado doméstico tem peso relevante, principalmente diante do tamanho do consumo interno.

A projeção de estoques finais brasileiros para 2026/27 caiu de 11,1 milhões para 10,1 milhões de toneladas, enquanto o consumo interno foi elevado de 98 milhões para 100 milhões de toneladas.

A combinação reduz a disponibilidade relativa do cereal no mercado brasileiro e aumenta a importância do consumo doméstico na formação das cotações.

Na soja, por outro lado, o desempenho das exportações e os prêmios pagos nos portos brasileiros podem alterar a transmissão das oscilações internacionais para o produtor. “Câmbio, prêmios da soja e exportações brasileiras de grãos continuam definindo quanto do movimento externo chega ao produtor. No milho, o consumo doméstico brasileiro também ganha importância”, afirma Isabella.

Os números de agosto do USDA mostram uma diferença importante entre os dois principais grãos negociados pelo Brasil. O milho passa a operar com estoques americanos mais apertados e menor relação estoque/uso, aumentando a sensibilidade do mercado a problemas climáticos e mudanças na demanda.

Na soja, a oferta americana maior mantém o mercado mais dependente de novos estímulos de consumo. A produtividade foi reduzida, mas o aumento da área colhida levou a produção acima da expectativa do mercado, enquanto a projeção de compras chinesas permaneceu em 115 milhões de toneladas.

Para o produtor brasileiro, portanto, acompanhar apenas Chicago não é suficiente. A direção dos preços dependerá da combinação entre o balanço internacional, o câmbio, os prêmios de exportação, o ritmo dos embarques e, no caso do milho, a evolução do consumo interno.

A diferença entre os fundamentos também muda os principais riscos para os dois mercados: no milho, o foco passa a ser a oferta disponível e a possibilidade de novos apertos; na soja, a questão central continua sendo se a demanda conseguirá absorver uma oferta maior.