Campanha presidencial errática de Zema ameaça até o futuro do partido Novo

Outsider vitorioso em 2018 e reeleito governador de Minas Gerais em 2022, o candidato enfrenta dificuldades em série na corrida eleitoral

BATANEWS/VEJA


ISOLAMENTO - O presidenciável na Igreja da Penha, no Rio: atos na rua não atraem aliados nem eleitores (./Reprodução)

Logo após o início da campanha eleitoral permitida por lei, o ex-governador de Minas Gerais e presidenciável Romeu Zema (Novo) decidiu ir às ruas dizer à população o que pretende fazer caso chegue ao Palácio do Planalto. Começou a perambulação por uma feira livre em Guaianases, bairro no extremo leste paulistano que tem a mesma população de Araxá (110 000 habitantes), cidade onde Zema nasceu, cresceu e iniciou a carreira empresarial que o levaria à política. Parou nas bancas, criticou o preço dos alimentos e atribuiu as dificuldades econômicas do país aos gastos excessivos do governo.

Defendeu cortes, privatizações e reformas estruturais. Dois dias depois, foi à Rua 25 de Março, movimentado ponto de comércio popular de São Paulo, onde fez as mesmas colocações, mas mirou também a taxa de juros, criticou a legislação que “infantiliza o trabalhador” e defendeu jornadas de trabalho maiores que as atuais 44 horas semanais. Em outro dia, subiu os 382 degraus da escadaria da Igreja da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, vestindo camiseta com a inscrição “Chega de bets”, participou de uma missa e pediu a intercessão da santa por sua campanha. Nos três eventos citados, a fotografia que ficou foi a do isolamento político — sem aliados ao lado e seguido apenas por repórteres, atraiu pouca atenção e muita indiferença dos eleitores.

A peregrinação quase solitária de Zema é o reflexo de seus números nas pesquisas eleitorais. Apesar de ter sido o primeiro a confirmar que seria candidato à Presidência da República, em agosto de 2025, e de ter deixado o comando do segundo maior colégio eleitoral do país em março, um mês antes do prazo, para se dedicar à disputa nacional, ele patina na corrida presidencial. Segundo o Datafolha, Zema tem 3% das intenções de voto, marca que o deixa empatado na margem de erro com nanicos como Augusto Cury (Avante), Samara Martins (UP) e Rui Costa Pimenta (PCO).

As cenas dos últimos dias também evidenciaram o que muitos aliados consideram uma campanha errática. Na mesma semana, ele teve oportunidade de ouro para falar com um grande número de eleitores, o debate da Band (o primeiro da TV aberta), mas, surpreendentemente, decidiu faltar. Sem Lula e Flávio Bolsonaro, cujas ausências já tinham sido anunciadas, esperava-se que ele aproveitasse o espaço para marcar posição contra o governo e roubar votos de Flávio, com quem, em tese, disputa espaço na direita. Acabou dando espaço para que rivais no mesmo campo político, Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão), aproveitassem a oportunidade — Zema nem foi citado. No dia seguinte, o mineiro abriu as sabatinas da Globo em horário nobre.

Defendeu privatizações (incluindo a da Petrobras), negou que tivesse ocorrido uma tentativa de golpe no país e se enrolou na tentativa de acenar ao eleitorado feminino, dizendo que tem “uma série de programas contra mulheres”. A sensação de desalento com a campanha só aumentou. “O Novo mudou tanto e ficou tão ruim que hoje não aparecer é a melhor coisa que pode acontecer ao partido”, critica João Amoêdo, fundador e ex-presidenciável da sigla, com a qual rompeu.

O desempenho de Zema é importante para o futuro da legenda — e por isso preocupa. Surpresa na eleição de 2018, quando fez oito deputados federais, a sigla refluiu em 2022, quando elegeu três e não conseguiu superar a cláusula de barreira. Com isso, já não contará com exibições de propagandas no horário eleitoral gratuito e seus representantes não precisam ser convidados para debates, segundo a legislação. Por isso mesmo, causou estranhamento entre os candidatos do partido Zema ter aberto mão do espaço na Band.

“Ele deveria ter ido ao debate, independente das sabatinas”, afirma o deputado Ricardo Salles (Novo-­SP), candidato ao Senado por São Paulo e uma das apostas da legenda. Uma liderança pernambucana do partido apontou que “a ida dele ao debate com certeza ajudaria na luta contra a cláusula de barreira”. “O maior custo político da campanha titubeante que Zema tem feito recai sobre o Novo. Uma candidatura presidencial morna produz efeitos sobre toda a cadeia eleitoral da legenda”, diz Murilo Medeiros, cientista político da UnB.

A dificuldade da arrancada eleitoral de Zema não se dá apenas pela falta de apoios, mas também pela adoção de uma estratégia errante. Primeiro, ele insistiu em fazer um embate com o STF, comprando briga com ministros da Corte, especialmente Gilmar Mendes, a quem chamou de “intocáveis”. Depois passou a mirar Flávio Bolsonaro tão logo vazou áudio no qual o senador cobrava dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, para financiar o filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. As críticas não lhe renderam mais eleitores nem atraíram apoios, mas geraram entreveros dentro de seu partido, incomodando políticos do Novo que são aliados do bolsonarismo. Líderes da sigla garantem que, daqui para a frente, Zema não mais atacará Flávio e focará no antipetismo, o que mostra também uma certa resignação em tentar tirar a vaga de Flávio no segundo turno contra Lula.

Os obstáculos de Zema na atual campanha não se resumem à corrida presidencial. Outsider em 2018, quando ganhou a primeira eleição que disputou, já para o governo de Minas Gerais, e reeleito com tranquilidade no primeiro turno de 2022, Zema, agora, não consegue emplacar o herdeiro político no estado. Seu afilhado, o ex-vice e atual governador, Mateus Simões (PSD), tem 4% das intenções de voto pelo Datafolha, em quarto lugar, bem distante do líder, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos).

O próprio Zema vai mal em território mineiro — tem 10% ante 31% de Flávio e 37% de Lula, ainda segundo o Datafolha, demonstrando que não consegue ser alternativa competitiva nem dentro de casa. Segundo Carlos Ranulfo, doutor em sociologia e política pela UFMG, a dificuldade de Zema no estado não ocorre apenas por causa da polarização nacional, visto que o outro ex-governador presidenciável, Ronaldo Caiado (PSD), tem desempenho muito melhor em Goiás. “Criou-se uma imagem de que ele governou bem Minas Gerais, mas o estado está completamente falido e com um funcionalismo totalmente desmontado em relação ao que foi construído nas gestões do PSDB”, afirma.

Para fazer justiça, é preciso dizer que Zema não é o único que não consegue decolar na disputa presidencial, mais uma vez caminhando para um duelo polarizado entre petismo e bolsonarismo. Outros nomes da direita, como o próprio Caiado e o empresário Renan Santos (Missão), também não conseguem chegar a dois dígitos nas pesquisas. Mas há diferenças que tornam pior a situação do mineiro.

Caiado terá dois minutos diários de tempo de TV e rádio e inserções ao longo do dia, além de contar com um partido muito mais sólido, que fez o maior número de prefeitos em 2024 (891) e tem seis governadores, 48 deputados e catorze senadores — embora boa parte da legenda também não se entusiasme com a sua candidatura. Já Renan Santos tem a militância do Movimento Brasil Livre, que sustentou o projeto de criação do Missão, e hoje ocupa o espaço de outsider da eleição, ameaçando inclusive o espaço ideológico que era ocupado pelo Novo.

É assim, espremido entre a hegemonia bolsonarista e a ascendente direita ultraliberal, que Zema lidera o arriscado desafio do Novo, do qual depende o futuro da sigla criada em 2015. A caminhada solitária do mineiro, por ora, não permite grande otimismo.

Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2026, edição nº 3010