El Niño muda manejo de soja, milho e trigo na safra 2026/27

Embrapa recomenda uso do Zarc, escalonamento da semeadura, proteção do solo, drenagem e monitoramento fitossanitário para reduzir os efeitos de seca e excesso de chuva.

BATANEWS/OPR


Foto: Jaelson Lucas

A ocorrência do El Niño na safra 2026/2027 coloca soja, milho e trigo diante de riscos climáticos diferentes conforme a região. Enquanto o Sul do Brasil tende a registrar maior volume de chuva, áreas do Centro-Norte podem enfrentar precipitações abaixo da média, temperaturas elevadas e maior irregularidade hídrica.

Para reduzir a exposição das lavouras, a Embrapa reuniu, em nota técnica entregue ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), 163 medidas de gestão de riscos climáticos, sendo 139 específicas para cadeias produtivas.

O documento foi elaborado por cerca de 50 especialistas da Embrapa, com participação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), e considera não apenas o El Niño, mas também outros eventos capazes de provocar perdas, como déficit hídrico prolongado, excesso de precipitação, temperaturas elevadas e tempestades severas. As recomendações são organizadas de acordo com o risco, o horizonte de implementação: imediato, curto, médio ou longo prazo, e as condições necessárias para adoção.

Para os grãos, a orientação central é antecipar decisões de manejo. A escolha da época de semeadura, do material genético e das práticas de conservação do solo passa a ter peso maior diante da possibilidade de alterações no regime de chuvas.

Soja exige estratégias diferentes entre Sul e Centro-Norte Na soja, o risco climático muda de acordo com a localização da lavoura. No Sul, a possibilidade de chuvas acima do normal aumenta a preocupação com erosão, excesso de umidade e doenças. No Norte e Nordeste, o problema tende a ser a redução e a irregularidade das precipitações, com possibilidade de déficit hídrico.

A Embrapa recomenda que o produtor respeite os períodos de semeadura estabelecidos pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc). A orientação também vale para o milho e é apontada como uma das principais ferramentas para reduzir a exposição da lavoura aos períodos de maior risco.

Outra estratégia indicada é o escalonamento da semeadura. Distribuir a implantação da lavoura dentro da janela recomendada pode reduzir a concentração do risco em um único período climático. A utilização de cultivares com diferentes ciclos também pode contribuir para distribuir as fases mais sensíveis das plantas ao longo do calendário.

A formação de palhada aparece como outra medida importante. A cobertura protege o solo contra o impacto direto das gotas de chuva, reduz o escoamento superficial e contribui para conservar umidade em períodos de menor precipitação.

No Sul, onde o risco predominante é o excesso de água, o manejo da água passa a ser tão importante quanto sua conservação.

Conservação do solo ganha peso no Sul Em áreas sujeitas a chuvas intensas, a Embrapa recomenda reforçar práticas de conservação do solo. Entre elas está a semeadura em nível ou em contorno, com as linhas acompanhando as curvas de nível. A técnica reduz a velocidade do escoamento superficial e favorece a infiltração da água no perfil do solo.

O terraceamento agrícola também aparece entre as estratégias para controlar o escoamento da água, reduzir erosão e aumentar a infiltração. Em uma safra com maior probabilidade de chuvas intensas no Sul, a manutenção dessas estruturas deixa de ser apenas uma prática de conservação e passa a integrar o planejamento de risco da lavoura.

A orientação é particularmente relevante para soja e milho, culturas de verão que estarão em campo justamente durante o período de maior influência do fenômeno.

Milho depende de planejamento da janela e da água Para o milho, a estratégia é semelhante à recomendada para a soja, mas com atenção especial ao posicionamento da cultura dentro da janela climática.

A Embrapa recomenda o cumprimento do Zarc para as culturas de verão e destaca a possibilidade de usar semeadura escalonada e materiais de ciclos diferentes como forma de distribuir o risco. A formação de cobertura vegetal e a conservação do solo também são medidas indicadas para enfrentar tanto períodos de déficit hídrico quanto eventos de chuva intensa.

No Sul, o problema pode estar menos na disponibilidade de água e mais na dificuldade de retirar o excesso dela da área. A combinação de chuva elevada, solo saturado e baixa luminosidade pode prejudicar o desenvolvimento das plantas e dificultar operações agrícolas.

Por isso, conservação do solo, drenagem adequada e planejamento operacional precisam ser considerados conjuntamente.

No Centro-Oeste, Norte e Nordeste, a lógica se inverte. A irregularidade das chuvas e períodos de temperaturas elevadas aumentam a importância do armazenamento de água no solo e da escolha adequada da época de semeadura.

Trigo enfrenta risco na fase de enchimento e colheita Para o trigo, o principal ponto de atenção está no Sul, onde o El Niño historicamente está associado a maior volume de chuva na primavera. O problema não é apenas a produtividade: o excesso de umidade próximo à maturação pode comprometer a qualidade tecnológica dos grãos.

A Embrapa Trigo alerta que chuvas na pré-colheita estão entre os principais riscos para a cultura em anos de El Niño. A recomendação é ajustar o investimento em insumos ao potencial produtivo esperado para as condições ambientais, evitando projetar produtividade excepcional em um ambiente climático de maior risco.

A escolha de cultivares e o posicionamento da lavoura também devem considerar o ambiente de produção e os riscos de chuva excessiva e doenças.

O excesso de umidade ainda favorece doenças fúngicas. O monitoramento precisa ser intensificado para identificar precocemente manchas foliares, oídio, ferrugens e giberela. Segundo a Embrapa Trigo, períodos consecutivos de chuva podem acelerar a evolução das doenças, tornando o acompanhamento da lavoura determinante para o momento de intervenção.

A estratégia para o trigo, portanto, envolve monitoramento fitossanitário, manejo adequado da adubação, escolha de cultivares, planejamento da colheita e acompanhamento das condições meteorológicas. Essas medidas também estão entre as orientações reunidas pela Embrapa para os cereais de inverno no Sul.

Mesma previsão climática produz riscos opostos O caso dos grãos mostra por que a Embrapa evita tratar o El Niño como sinônimo automático de quebra de safra.

O fenômeno altera a distribuição dos riscos. A previsão oficial indica maior probabilidade de chuva acima da média no Sul e de precipitação abaixo da média em partes do Centro-Norte. Mas isso não significa que todas as lavouras de uma determinada região sofrerão os mesmos impactos. A própria nota técnica ressalta que as projeções indicam aumento de probabilidade, e não determinam antecipadamente o resultado de uma cultura ou propriedade.

Esse cuidado é importante para a tomada de decisão. Uma previsão de chuva abaixo da média não significa necessariamente que uma lavoura terá déficit hídrico. Da mesma forma, uma previsão de chuva acima da média não implica necessariamente perda de produtividade. Solo, época de plantio, cultivar, sistema de manejo, capacidade de drenagem e disponibilidade de água modificam a exposição ao risco.

Zarc deixa de ser apenas referência de plantio A recomendação de utilizar o Zarc aparece entre as 14 medidas transversais propostas pela Embrapa para toda a agropecuária. O conjunto inclui ainda monitoramento das previsões meteorológicas, uso de dados locais, diversificação espacial e temporal da produção, elaboração de planos de contingência, manutenção da infraestrutura, dimensionamento da capacidade operacional, registro dos eventos climáticos, avaliação econômica do nível de proteção, reservas financeiras, seguro rural e capacitação das equipes.

Para a produção de grãos, isso significa que a gestão do risco começa antes da semeadura e não termina na escolha da cultivar.

O produtor precisa considerar, por exemplo, quando plantar, qual cultivar utilizar, como proteger o solo, como retirar o excesso de água, como preservar umidade, qual capacidade operacional estará disponível para aproveitar uma janela curta de trabalho e como proteger financeiramente a produção caso o evento climático provoque perdas.

Clima entra no cálculo econômico da lavoura Um dos pontos mais relevantes da proposta da Embrapa é levar o risco climático para dentro da gestão econômica.

A nota técnica recomenda avaliar economicamente o nível de proteção necessário para cada risco, criar reservas financeiras e utilizar mecanismos de transferência de risco, como o seguro rural. A lógica é evitar que toda a exposição ao clima fique concentrada na produtividade da propriedade.

Para uma lavoura de soja, milho ou trigo, isso pode significar comparar o custo de determinadas práticas de proteção com o prejuízo potencial de um evento climático. Terraceamento, drenagem, irrigação, cobertura do solo, diversificação de cultivares e escalonamento da semeadura deixam de ser avaliados apenas pelo custo imediato e passam a ser considerados também pelo risco que conseguem reduzir.

El Niño exige planejamento, mas não determina a safra O terceiro boletim do Painel El Niño, coordenado por órgãos federais de monitoramento climático, reforçou em setembro a elevada probabilidade de um episódio muito forte nos próximos meses. O acompanhamento oficial também mantém a indicação de padrões distintos de precipitação entre Sul e Centro-Norte.

Nesse contexto, a principal contribuição da nota da Embrapa para os grãos não está em indicar uma única estratégia para a safra 2026/27. Está em estabelecer uma sequência de decisões: monitorar o clima, respeitar o Zarc, escolher a cultivar de acordo com o ambiente, proteger o solo, planejar a semeadura, preparar estruturas de drenagem ou irrigação, acompanhar doenças e distribuir financeiramente a exposição ao risco.

A proposta é que essas medidas sejam utilizadas não apenas durante o El Niño. Das 163 recomendações da Embrapa, dez são voltadas a ações institucionais, financeiras, científicas, tecnológicas e de assistência técnica, enquanto as demais incluem medidas transversais e específicas para cadeias produtivas. O documento foi concebido para formar uma política permanente de gestão de riscos agroclimáticos, abrangendo também secas, excesso de chuva, ondas de calor, geadas, tempestades e incêndios.