Agricultura
Safra 2026/27 começa antes da plantadeira, com margem, clima e preço em jogo
Soja entra no novo ciclo com 82% dos fertilizantes já contratados e apenas 15% da produção comercializada. Avanço do El Niño aumenta o peso da produtividade nas contas do produtor.
BATANEWS/OPR
A safra brasileira de grãos 2026/27 começa a ser definida antes mesmo de as plantadeiras entrarem no campo. Para a soja, parte relevante dos custos já está contratada, enquanto a comercialização permanece abaixo da média histórica e o clima começa a pesar nas estratégias para os próximos meses. Com pouca expansão prevista para a área cultivada, produtividade e preço ganham importância na formação do resultado.
Engenheira de produção Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro: “O produtor não precisa tomar uma decisão de uma única vez. A construção de margem pode ser feita por etapas, aproveitando momentos em que a relação entre preço de venda e custo contratado seja favorável” – Foto: Divulgação/Biond Agro
As primeiras projeções indicam uma área de soja entre 49 milhões e 49,5 milhões de hectares, avanço de apenas 0,3% a 1,2% sobre o ciclo anterior. Com espaço limitado para crescer em área, o aumento da produção dependerá principalmente do rendimento obtido por hectare.
Para a engenheira de produção Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, esse quadro exige que o produtor avalie a rentabilidade da próxima temporada antes mesmo do início do plantio. “Uma parte importante da estrutura de custos já está definida, então as decisões comerciais passam a ter um peso maior sobre a margem. O produtor precisa avaliar quanto da receita pode ser protegida agora sem perder a flexibilidade necessária para o restante do ciclo”, destaca.
Fertilizante antecipa parte da conta
A compra de insumos ajuda a explicar por que as contas da próxima safra começam a ser fechadas com antecedência. Até o fim de julho, cerca de 82% das necessidades de fertilizantes para a soja 2026/27 já haviam sido contratadas no país.
A relação de troca mostra diferenças importantes entre os principais nutrientes. Em Sorriso (MT), uma tonelada de MAP exigia 45,3 sacas de soja, patamar 27,7% acima da média de quatro anos. O KCl, por sua vez, estava praticamente alinhado à referência histórica.
Com parte do custo por hectare já conhecida, o preço de venda e a produtividade passam a ter peso ainda maior sobre o resultado da lavoura. A combinação entre o momento da compra dos insumos e a comercialização da produção, portanto, ganha importância na gestão da safra. “O momento de compra dos insumos e o momento de venda da produção precisam ser analisados em conjunto. Quando uma parcela do custo já está contratada, movimentos favoráveis de preço podem ser utilizados para proteger parte da margem e reduzir a exposição da operação”, explica Isabella.
Comercialização da soja ainda está atrasada
A soja 2026/27 chega ao início do ciclo com aproximadamente 15% da produção nacional já comercializada. O percentual é ligeiramente superior aos 14,5% registrados no mesmo período da temporada anterior, mas permanece abaixo da média histórica, de cerca de 21%.
O ambiente de preços, por outro lado, oferece espaço para avançar nas vendas. Chicago opera acima de US$ 13 por bushel, enquanto os prêmios nos portos ajudam a sustentar referências consideradas favoráveis, mesmo diante das oscilações do câmbio e da bolsa norte-americana.
Para os produtores que ainda estão pouco vendidos, Isabella avalia que a estratégia pode ser construída gradualmente, com possibilidade de proteger cerca de 45% de uma produção conservadora.
A ideia é reduzir a exposição antes que as condições climáticas brasileiras passem a exercer maior influência sobre as cotações, sem comprometer a capacidade de aproveitar movimentos futuros de mercado. “O produtor não precisa tomar uma decisão de uma única vez. A construção de margem pode ser feita por etapas, aproveitando momentos em que a relação entre preço de venda e custo contratado seja favorável”, afirma.
Plantio começa em ritmos diferentes
O calendário de plantio também impõe estratégias distintas entre as regiões produtoras. No Paraná, Norte, Noroeste, Centro-Oeste e Oeste, a semeadura está liberada desde 1º de setembro. Em Mato Grosso, a abertura ocorreu na última segunda-feira (07). Outras regiões do Paraná e Goiás terão liberações ao longo do mês, com Goiás iniciando apenas em 25 de setembro.
Em Mato Grosso, a melhora da umidade registrada antes da abertura oficial não significa, por si só, que o plantio ganhará ritmo. Depois da liberação, a velocidade da semeadura dependerá da combinação entre água disponível no solo e continuidade das chuvas.
Em Goiás, a janela mais tardia concentra parte dessa decisão no fim de setembro e torna as condições de outubro ainda mais importantes para o avanço dos trabalhos.
El Niño aumenta o risco sobre a produtividade
Com uma expansão limitada da área cultivada, qualquer desvio de produtividade poderá ter impacto maior sobre a produção nacional. Por isso, o clima ganha peso nas projeções para a temporada. Há probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte entre setembro e novembro, com possibilidade de permanência do fenômeno até o início de 2027.
No Brasil Central, eventuais atrasos ou interrupções na reposição de umidade podem reduzir o ritmo de plantio, aumentar a necessidade de replantio e comprometer o potencial produtivo. No Sul, o excesso de chuva pode diminuir os dias disponíveis para as operações agrícolas e elevar a pressão de doenças. “Quando a expansão de área é pequena, qualquer desvio de produtividade passa a ter um impacto maior sobre a produção nacional. Por isso, o clima precisa ser acompanhado não apenas pelo efeito que pode ter sobre os preços, mas também pela capacidade de alterar o potencial produtivo da safra”, avalia Isabella.
Milho entra no ciclo com mais exposição
No milho, a construção da estratégia ocorre em um estágio diferente. Enquanto cerca de 60% da safra atual já foi comercializada, apenas 10% da produção de 2026/27 havia sido negociada. Isso mantém uma parcela expressiva do volume futuro exposta às oscilações do mercado.
A relação entre milho e ureia voltou para perto da média dos últimos cinco anos, em torno de 57 sacas por tonelada de fertilizante. A ureia, entretanto, voltou a ganhar firmeza no mercado brasileiro, com referências próximas de US$ 430 a US$ 445 por tonelada CFR.
O clima pode acrescentar volatilidade ao mercado. Um aumento do risco sobre a soja e, consequentemente, sobre a janela de plantio da segunda safra tende a influenciar as expectativas para o milho 2027.
Nesse cenário, a estratégia de comercialização também pode ser construída em etapas, preservando espaço para novas oportunidades de preço ao longo do ciclo.
Menos área, mais peso para cada decisão
A combinação de expansão limitada da área, custos parcialmente contratados, comercialização ainda abaixo da média histórica e incertezas climáticas reduz a margem para erros na safra 2026/27.
Na soja, o cenário atual permite antecipar parte da receita enquanto os preços ainda oferecem oportunidades de proteção. No milho, a baixa comercialização da próxima temporada mantém maior exposição às oscilações do mercado e, ao mesmo tempo, abre espaço para novas decisões nos próximos meses. “A estratégia para a nova safra passa por entrar no plantio com parte da margem já protegida, mas mantendo flexibilidade para aproveitar as oportunidades que podem surgir durante o ciclo. O equilíbrio entre proteção e exposição é o que vai permitir ao produtor administrar melhor os riscos da temporada”, ressalta Isabella.
A lógica, portanto, não é tentar acertar antecipadamente o melhor preço ou fechar todas as operações antes do plantio. É combinar custos, comercialização, produtividade e clima para reduzir a exposição e preservar capacidade de reação.
Na safra 2026/27, parte importante do resultado começa a ser definida antes mesmo de a lavoura nascer.






