Agricultura
Uso da IA cresce no campo e transforma experiência do produtor em dados
Tecnologia já está presente em 41,9% das fazendas e agroindústrias e amplia as possibilidades de gestão, monitoramento e tomada de decisão.
BATANEWS/OPR
A inteligência artificial já deixou de ser uma promessa distante no agronegócio brasileiro. A tecnologia começa a ocupar espaço tanto em máquinas e equipamentos quanto na gestão das propriedades, mas sua expansão não significa a substituição do conhecimento acumulado por quem vive do campo. Ao contrário: produtores experientes podem estar entre os que mais se beneficiam das ferramentas capazes de transformar grandes volumes de dados em informações para a tomada de decisão.
No Brasil, 41,9% das fazendas e agroindústrias já utilizam inteligência artificial, mais que o dobro dos 16,9% registrados em 2022, segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgado em maio deste ano. O avanço é expressivo, mas também mostra o espaço ainda existente para a expansão da tecnologia: quase seis em cada dez propriedades e agroindústrias ainda não fazem uso de IA. “A inteligência artificial não elimina a experiência do produtor, ela potencializa essa experiência. Quem conhece profundamente uma cultura consegue fazer perguntas melhores, interpretar melhor os dados e transformar a informação gerada pela IA em uma decisão mais precisa. A tecnologia pode ser nova, mas o conhecimento que alimenta uma boa decisão continua sendo construído no campo”, afirma a engenheira agrônoma Míriam Xavier.
Embora a adoção da IA esteja mais avançada na agroindústria, as aplicações dentro da porteira já são diversas. Tratores capazes de operar de forma autônoma, pulverizadores que identificam os pontos exatos para aplicação de insumos, sistemas de visão que analisam plantas individualmente e drones equipados com recursos inteligentes são exemplos de tecnologias que já começam a modificar operações agrícolas.
O uso da inteligência artificial, no entanto, não está restrito a equipamentos de alto custo ou grandes propriedades. Ferramentas mais simples podem ser incorporadas à rotina do produtor e auxiliar principalmente em uma área que consome tempo: a gestão.
Levantamento Global Farmer Insights 2024, da McKinsey, mostra que apenas 22% dos agricultores brasileiros entrevistados utilizam softwares de gestão agrícola. O índice está abaixo do registrado nos Estados Unidos, onde chega a 38%, e na Europa, com 32%.
A adoção de sistemas integrados ainda encontra obstáculos como falta de conectividade no campo, custo de implementação e dependência de métodos tradicionais de controle, como planilhas e cadernos de campo. Ao mesmo tempo, a ampla utilização de smartphones cria espaço para ferramentas mais simples, acessíveis e adaptadas à rotina das propriedades. “A IA aplicada à gestão pode ser utilizada em qualquer tamanho de empresa. Há várias ferramentas disponíveis de acordo com a necessidade de cada produtor”, afirma Míriam.
Para a engenheira agrônoma, uma das principais contribuições da inteligência artificial está justamente na capacidade de organizar informações e reduzir o tempo gasto em tarefas administrativas e analíticas. “O produtor rural tem tempo muito curto para a grande quantidade de atividades que tem que administrar e executar. Ferramentas de IA ajudam a organizar os negócios, monitorar a lavoura e tomar as decisões mais acertadas”, pontua.
Planilhas, anotações, registros de campo e verificações podem ser reunidos e analisados de maneira mais rápida. A partir desse conjunto de informações, o produtor pode estabelecer rotinas, criar calendários e cronogramas e acompanhar a evolução da lavoura com base em um histórico organizado.
Segundo Míriam, o tratamento dos dados com metodologia também contribui para reduzir riscos e tornar os processos mais eficientes. “A demanda no campo está crescendo e a IA está associada a essa estratégia de agilizar a análise de informações e mostrar caminhos e soluções mais adequados”, ressalta.
O ganho, portanto, não está apenas na velocidade. Ao reunir dados que antes permaneciam dispersos, a tecnologia pode ampliar a capacidade de análise da propriedade e oferecer ao produtor uma visão mais estruturada do negócio. “O que levaria dias para ser analisado por uma pessoa, leva minutos com a ajuda da IA. Mas é preciso lembrar que a decisão final sempre é do responsável”, salienta.
A possibilidade de fazer mais em menos tempo pode liberar o produtor para atividades que exigem conhecimento, relacionamento e capacidade de decisão. A tecnologia também pode apoiar o acompanhamento de clientes e fornecedores, a organização financeira e o planejamento de novas estratégias comerciais.
Nesse modelo, a inteligência artificial não ocupa o lugar de quem toma a decisão. Ela funciona como uma ferramenta de apoio, capaz de processar informações em uma velocidade que dificilmente seria alcançada manualmente.
É justamente nessa combinação entre conhecimento acumulado e capacidade de processamento que Míriam vê uma das maiores vantagens da tecnologia. “É uma ferramenta de enorme potencial que depende apenas de o produtor se interessar por ela e começar a usá-la. Não há mistério. E quanto mais conhecimento o agricultor tem, com sua experiência e informações adquiridas, mais a IA trabalha a seu favor. Basta dar o primeiro passo”, explica.
A principal mudança foi tirar a ideia de que IA é apenas uma tecnologia de máquinas e colocá-la também como ferramenta de gestão. Isso deixa o texto mais relevante para o produtor, especialmente o de menor porte.






