Guerra entre Rússia e Ucrânia eleva trigo em 13% entre agosto e setembro

Conflitos e restrições ao transporte pelo Mar Negro sustentaram as cotações internacionais, enquanto preocupações com a qualidade da safra mantiveram os preços firmes no Brasil.

BATANEWS/OPR


Foto: Divulgação/Pixabay

A escalada das tensões entre Rússia e Ucrânia voltou a colocar a logística do Mar Negro no centro da formação dos preços. Entre 10 de agosto e 10 de setembro, o trigo acumulou alta de 13% no mercado internacional, encerrando o período a US$ 7,23 por bushel.

O movimento refletiu principalmente os riscos relacionados ao escoamento do trigo russo. Segundo o Agro Mensal de setembro, da Consultoria Agro do Itaú BBA, ataques e restrições logísticas no corredor Azov-Mar Negro aumentaram a incerteza sobre a oferta disponível para o comércio internacional.

No início de setembro, rumores sobre um possível acordo de paz entre Rússia e Ucrânia chegaram a pressionar as cotações. A redução do risco geopolítico, porém, não foi suficiente para devolver os preços aos níveis anteriores.

Exportações russas recuam para 1,3 milhão de toneladas Os efeitos das dificuldades logísticas já aparecem nos embarques russos. Em agosto, a Rússia exportou 1,3 milhão de toneladas de trigo, volume que representou forte queda em relação ao mesmo mês do ano anterior.

Para o Itaú BBA, o mercado acompanha se essa redução será apenas temporária ou se as restrições poderão comprometer de forma mais prolongada a participação russa no comércio internacional.

A questão é relevante porque qualquer interrupção mais persistente de um dos principais fornecedores mundiais tende a aumentar a busca por trigo de outras origens e incorporar um prêmio de risco às cotações.

Chuvas no Sul limitam pressão da colheita sobre os preços No Brasil, a alta internacional encontrou um mercado doméstico já atento à qualidade da safra. O avanço da colheita normalmente aumenta a oferta e exerce pressão sobre as cotações nesta época do ano, mas esse efeito foi limitado pelas preocupações com perdas de qualidade no Sul.

No Paraná, o trigo foi comercializado a R$ 77,96 por saca, alta de 4% nos últimos 30 dias. O excesso de chuvas durante a colheita elevou as preocupações sobre a qualidade do cereal, reduzindo parte da pressão sazonal provocada pela entrada da nova safra.

O cenário é particularmente relevante para a indústria moageira, que depende de parâmetros de qualidade para diferentes aplicações. Assim, uma produção elevada não significa necessariamente maior disponibilidade de trigo com as características exigidas pelos moinhos.

Menor oferta de trigo de qualidade também afeta os EUA Além dos problemas logísticos no Mar Negro, o mercado internacional encontra outro fator de suporte nos Estados Unidos: a menor disponibilidade de trigo duro de inverno (HRW), utilizado na produção de farinha para panificação.

Com estoques exportáveis norte-americanos mais apertados, eventuais problemas de oferta em outros países podem aumentar a procura pelo trigo dos Estados Unidos, especialmente nos segmentos que exigem maior qualidade.

Esse fator amplia a sensibilidade dos preços internacionais a problemas de oferta que, isoladamente, poderiam ter impacto menor sobre o mercado global.

Argentina terá papel decisivo para o mercado brasileiro Na América do Sul, a atenção se volta para a qualidade da safra argentina. A produção é estimada em aproximadamente 21 milhões de toneladas, enquanto cerca de 96% das lavouras estavam em condição normal a excelente.

Apesar das boas condições gerais das plantações, o mercado monitora os níveis de proteína e a ocorrência de doenças. A preocupação tem peso direto para o Brasil, já que a Argentina é o principal fornecedor de trigo do mercado brasileiro.

A capacidade da nova safra argentina de atender às especificações da indústria moageira brasileira será, portanto, determinante para a formação dos preços e para a necessidade de buscar outras origens.

El Niño aumenta atenção sobre qualidade da safra brasileira No Brasil, setembro e outubro serão importantes para a definição da qualidade do trigo no Sul. As previsões associadas ao El Niño indicam continuidade de um ambiente mais úmido na região.

As chuvas reduzem o risco de estresse hídrico, mas aumentam a possibilidade de doenças fúngicas e problemas de qualidade. No Rio Grande do Sul, a preocupação é maior porque parte relevante das lavouras ainda estava nas fases de enchimento de grãos e floração.

Com isso, o mercado passa a observar não apenas o volume produzido, mas também a qualidade efetivamente disponível para a indústria.

Mercado combina oferta global confortável e risco sobre qualidade Para a Consultoria Agro do Itaú BBA, a perspectiva para os preços permanece de sustentação. O mercado não enfrenta necessariamente um quadro de oferta mundial apertada, mas reúne três fatores capazes de manter as cotações firmes: incertezas sobre o escoamento do trigo russo, menor disponibilidade de trigo de qualidade nos Estados Unidos e riscos climáticos para a qualidade das safras sul-americanas.

No Brasil, essa combinação ganha importância porque o avanço da colheita pode elevar a oferta, mas problemas de qualidade podem reduzir a parcela do cereal apta a atender às exigências da indústria. Ao mesmo tempo, a dependência do trigo argentino mantém o mercado brasileiro exposto ao desempenho da próxima safra do país vizinho.