Agricultura
El Niño de 2026 pode trocar excesso de chuva por instabilidade dentro da mesma safra
Massas de ar frio devem interromper períodos chuvosos no Sul, enquanto veranicos podem marcar o início do plantio no Centro-Norte.
BATANEWS/OPR
A próxima safra de verão pode ser marcada menos pela falta ou pelo excesso generalizado de chuva e mais pela irregularidade na distribuição das precipitações. A projeção está associada ao El Niño previsto para ganhar força no segundo semestre de 2026, mas também à presença de águas mais frias no litoral da Argentina e do Uruguai e ao aquecimento do Atlântico na costa do Nordeste.
De acordo com projeção do Centro de Previsão Climática (CPC), dos Estados Unidos, a temperatura das águas do Oceano Pacífico pode chegar a até três graus acima da média durante o segundo semestre e permanecer elevada ao longo da safra de verão. A intensidade prevista para o fenômeno aumenta a probabilidade de alterações no regime de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do Brasil.
O comportamento, porém, pode fugir do padrão mais conhecido do El Niño. No Sul do país, a atuação de uma extensa área de águas frias próxima à costa da Argentina e do Uruguai pode favorecer a formação de ciclones e a entrada de massas de ar frio no continente.
Na prática, períodos de chuva podem ser intercalados por incursões de ar polar, provocando quedas de temperatura mesmo durante a primavera e o verão. O ar mais frio e seco também pode contribuir para interromper temporariamente os episódios de precipitação.
Isso não significa, necessariamente, uma redução das chuvas acumuladas no Sul. A avaliação é de que a região ainda poderá registrar precipitações acima do normal durante a safra de verão, mas com maior alternância entre eventos chuvosos e períodos de tempo mais seco. “Será um El Niño extremamente forte”, afirma Ronaldo Coutinho do Prado, da Climaterra.
No Centro-Norte, o ponto de atenção é outro. A influência do El Niño tende a reduzir as chuvas em parte da região, aumentando o risco de períodos secos justamente durante a implantação das lavouras.
Mato Grosso, norte de Mato Grosso do Sul e Matopiba estão entre as áreas que podem enfrentar maior irregularidade entre agosto, setembro e outubro. Para o produtor, a questão não será necessariamente passar longos períodos sem chuva, mas lidar com precipitações suficientes para iniciar o plantio e, posteriormente, enfrentar novas interrupções. “Muito cuidado porque vai ter chuva, mas também vai ter veranicos prolongados, com cortes nas chuvas em Mato Grosso, norte de Mato Grosso do Sul e no Matopiba em agosto, setembro e outubro”, projeta Coutinho.
Segundo o meteorologista, a ocorrência de algumas chuvas pode criar a impressão de que a estação seca terminou. O sinal, entretanto, pode ser enganoso. Uma nova sequência de dias secos e temperaturas elevadas pode ocorrer depois dessas primeiras precipitações.
Essa alternância aumenta a importância da distribuição das chuvas para a definição da janela de plantio. Uma precipitação isolada pode permitir a entrada das máquinas no campo e o início da semeadura, mas a ausência de novas chuvas nas semanas seguintes pode comprometer a emergência e o estabelecimento das plantas.
O comportamento climático pode voltar a mudar à medida que a safra avança. O aquecimento das águas do Atlântico na costa do Nordeste é outro fator considerado nas projeções e pode favorecer precipitações acima da média no Centro-Norte durante o período de colheita.
A consequência para a agricultura é diferente daquela provocada pelos veranicos no início do ciclo. Chuvas excessivas na colheita podem dificultar o acesso das máquinas às lavouras, aumentar o tempo necessário para retirada dos grãos e elevar a umidade do produto, com possíveis reflexos sobre secagem e armazenagem.
A mesma safra, portanto, pode reunir condições climáticas distintas conforme a região e a etapa do ciclo. No Centro-Norte, o início do plantio aparece como período de atenção por causa dos veranicos. Mais adiante, o excesso de chuva pode voltar a ser uma preocupação durante a colheita. No Sul, a previsão combina precipitações elevadas com interrupções provocadas pela entrada de ar frio.
O resultado é um cenário em que o volume acumulado de chuva não conta toda a história. Para o planejamento da safra 2026/27, a frequência das precipitações, a duração dos períodos secos e a ocorrência de eventos extremos ao longo do ciclo podem ser tão relevantes quanto a quantidade total de água registrada.






