Poderoso em Brasília, Alcolumbre sofre para emplacar aliados no seu reduto eleitoral

Cacique fica sob pressão com o favoritismo da direita na corrida ao Senado

BATANEWS/VEJA


DIFICULDADES - Randolfe, Lula, Clécio Luis e o presidente do Congresso: nem descoberta de petróleo ajudou a campanha (@clecioluis/Facebook)

Nos últimos anos, o senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) se tornou um personagem central do jogo político em Brasília. Chefe do Senado e do Congresso pela segunda vez, ele já deu mostras reiteradas de poder ao dificultar a vida no Legislativo de presidentes da República, como Jair Bolsonaro e Lula, ao impor constrangimentos a candidatos a ministros do Supremo (como André Mendonça, que esperou seis meses para ser sabatinado, e Jorge Messias, cuja indicação foi rejeitada) ou ao segurar a votação de impeachment de magistrados, como tem feito em relação a Alexandre de Moraes, que está sob graves suspeitas no escândalo do Banco Master. O mandato dado a Alcolumbre em Brasília vem do segundo menor colégio eleitoral do país, o Amapá (577 534 votantes), que o elegeu em 2014 e o reelegeu em 2022 e é comandado por seu grupo há onze anos. O cacique, no entanto, enfrenta agora dois riscos concretos: ver o domínio político do estado escapar de suas mãos e ter seu protagonismo contestado no poder central.

Embora não esteja nas urnas neste ano — só em 2030 ele terá de renovar seu mandato —, Alcolumbre trava uma eleição difícil em seu estado. Seu candidato, o governador Clécio Luis (União Brasil), enfrenta grande dificuldade para obter a reeleição e manter o domínio do mesmo grupo político, ininterrupto desde a vitória em 2014 de Waldez Góes, hoje ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional de Lula. A máquina pública e a longeva hegemonia, porém, parecem não ser suficientes: segundo pesquisa Real Time Big Data de setembro, Clécio tem 31% das intenções de voto contra 62% do ex-prefeito de Macapá Antônio Furlan, o Dr. Furlan (PSD).

O tamanho da vantagem expõe uma das peculiaridades mais decisivas da política local: Macapá concentra 56% dos eleitores do estado, que tem apenas dezesseis municípios. Em 2024, Furlan foi reeleito prefeito no primeiro turno com quase 86 000 votos a mais do que Clécio havia obtido para o governo dois anos antes. “Macapá é uma capital-estado e concentra basicamente todos os serviços. E nós transformamos a forma de gerir e fazer política”, diz Furlan. Sua esposa, Rayssa Furlan (Podemos), também é uma pedra no sapato de Alcolumbre: depois de quase ter tirado a vaga dele em 2022, ela agora lidera com folga (33%) a corrida ao Senado, deixando para trás os aliados do cacique, Randolfe Rodrigues (PT), líder do governo Lula no Congresso, que tem 20%, e Alliny Serrão (União Brasil), que está com 9%.

A aliança de Alcolumbre com Lula era tida como o grande trunfo para o pleito de 2026. No mesmo palanque, os dois trabalham pela reeleição do governador e de Randolfe. Tão logo foi confirmada a descoberta de petróleo na bacia da Foz do Amazonas, o presidente se apressou em aparecer em um navio-sonda da Petrobras na costa do Amapá para explorar a notícia ao lado de Alcolumbre, Randolfe e Clécio, na expectativa de alavancar os aliados. O problema é que a força do petista está longe de ser suficiente para resolver a eleição no Amapá, onde está tecnicamente empatado (34% a 32%) com Flávio Bolsonaro (PL).

A dificuldade no reduto político assombra Alcolumbre no momento em que ele é duramente pressionado em Brasília. Na última semana, ele foi arrastado duplamente para a crise envolvendo o STF. Primeiro, porque foi citado em relatório apócrifo da PF como “alvo estratégico” da investigação relatada pelo ministro André Mendonça. Depois, veio o aumento da pressão para que paute o impeachment de Moraes no Senado, coisa que ele vem recusando. Também foi alvo de intensas cobranças de senadores, que criticam o fato de a Casa estar em “recesso branco” no meio da crise. A pressão já bateu no Amapá. No domingo 13, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) reuniu 6 000 pessoas em ato em Macapá contra Alcolumbre. “Nunca mais o Amapá se curvará para a velha política”, disse, antes de fechar o discurso com um “Fora, Davi!”.

Não bastasse a dificuldade em seu território político, Alcolumbre se preocupa com outra eleição em andamento, que é uma ameaça ainda maior a seu futuro. Em outubro, dois terços das cadeiras do Senado serão renovadas. O risco é a direita bolsonarista, que já o elegeu como inimigo, obter maioria, como sugerem as pesquisas, e viabilizar uma candidatura de oposição na eleição do novo presidente do Senado, em fevereiro de 2027. “Estamos vendo um rebatimento da polarização nacional em torno do STF, ajudando a eleger senadores da extrema direita”, diz Mayra Goulart, cientista política da UFRJ. Mesmo não sendo candidato neste ano, Alcolumbre vive dupla aflição: precisa manter o domínio de seu reduto e, principalmente, o direito a continuar sentado numa das cadeiras mais relevantes de Brasília.

Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2026, edição nº 3013