Com Super El Niño, casos de dengue no Brasil poderão variar de 1 milhão a 5,6 milhões em 2027

Projeção é crítica e motivou laboratório com a única vacina aprovada e disponível no país a criar nova campanha de prevenção

BATANEWS/VEJA


Dengue: controle do mosquito e vacinação terão de ser prioridade para evitar epidemia (Joao Paulo Burini/Getty Images)

Nove vezes mais mortes do que as causadas por acidentes de automóveis em rodovias; 44 vezes mais óbitos do que aqueles provocados por engasgos; 35 vezes mais casos fatais do que os decorrentes de afogamentos em piscinas; 290 vezes mais quadros letais do que os associados a picadas de escorpião.

Em apenas um ano, a dengue foi capaz de provocar uma tragédia humana, como provam os números da temporada de 2024, quando a doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti afetou mais de 6,5 milhões de brasileiros e esteve por trás de mais de 6 000 mortes.

Super El Niño: o que você precisa saber

São esses dados e comparações chocantes que a farmacêutica Takeda decidiu empregar para chamar a atenção e sustentar sua nova campanha de combate à infecção e incentivo à vacinação. A missão da iniciativa, que se estende dos canais digitais à TV aberta, é resgatar o senso de urgência da população em relação à dengue.

Isso se torna ainda mais crítico quando se leva em conta que, com as mudanças climáticas e o fenômeno do Super El Niño, as previsões para 2027 são preocupantes. Segundo as modelagens realizadas pela InfoDengue e a Fiocruz, cerca de 1,7 milhão de casos devem ocorrer no país no próximo ano – um número que, na verdade, poderá variar de 1 milhão até 5,6 milhões.

A campanha do laboratório japonês, o único a ter uma vacina contra dengue aprovada e disponível no Brasil (Qdenga), mira justamente a falsa sensação de segurança da população e reforça a necessidade de uma prevenção conjugada, que contemple tanto o combate aos criadouros do mosquito como a imunização. Com regime de duas doses, Qdenga é fornecida gratuitamente pelo SUS a crianças e adolescentes de 10 a 14 anos e, na rede privada, pode ser aplicada em pessoas de 4 a 60 anos.

A seguir, a diretora médica da Takeda, Vivian Lee, e o diretor da Unidade de Negócios de Especialidades e Vacinas da empresa, Rodrigo Martins, detalham como anda a imunização no Brasil, o que se espera para a próxima temporada e o papel da nova campanha da farmacêutica.

Poderiam fazer um balanço da vacinação com Qdenga no país? Rodrigo Martins: A Takeda tem um compromisso de longo prazo com a saúde pública no Brasil e celebra o avanço histórico representado pela incorporação da vacina contra a dengue Qdenga no Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Sistema Único de Saúde para adolescentes de 10 a 14 anos, além da sua disponibilidade na rede privada para a faixa etária de 4 a 60 anos, conforme aprovado pela Anvisa. Para mensurar a dimensão desse trabalho conjunto e o alcance da imunização até o momento, destacamos os principais marcos de distribuição e aplicação. Primeiro, o Brasil tornou-se o primeiro país do mundo a incorporar essa vacina na rede pública. O 1º contrato com o Ministério da Saúde (15,6 milhões de doses) foi 100% cumprido e entregue até o final de 2025. Em junho de 2026, formalizamos o 2º contrato para a entrega de mais 18 milhões de doses no biênio 2026–2027, já registrando as primeiras 4 milhões de doses entregues em ritmo acelerado em julho. Assim, no acumulado de janeiro de 2024 a agosto de 2026, a Takeda atingiu o marco de mais de 21,7 milhões de doses distribuídas ao PNI. Até setembro de 2026, o Brasil alcançou a marca de 12,6 milhões de doses efetivamente aplicadas na população, beneficiando mais de 8 milhões de brasileiros vacinados. No cenário internacional, a Takeda já ultrapassou a marca de 30 milhões de doses distribuídas mundialmente. O principal avanço do programa foi a estruturação da logística e a capilaridade da vacinação em escala nacional. Até agosto de 2027, concluiremos a entrega total das 18 milhões de doses do contrato vigente, viabilizando um acumulado histórico de 33,6 milhões de doses de Qdenga fornecidas à população brasileira em parceria com o Governo Federal.

Sabemos que imunizantes que dependem de mais de uma dose podem esbarrar em obstáculos de adesão da população. Como lidam com essa questão? Rodrigo Martins: Há o desafio de saúde pública para garantir a conclusão do esquema vacinal de duas doses, assegurando a proteção máxima e sustentada contra os quatro sorotipos do vírus. Ao longo do histórico da campanha pública com a Qdenga no país, o Brasil registra uma taxa de adesão de 54% à segunda dose. A importância de completar o esquema de é respaldada por evidências de vida real no Brasil: um estudo recente e independente liderado pelo infectologista Julio Croda, da Fiocruz e da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, realizado com mais de 166 000 testes em adolescentes em São Paulo, durante o pico epidêmico de 2024/2025, comprovou que a vacinação com duas doses da Qdenga alcança 87,9% de efetividade contra hospitalizações por dengue e 73,1% de proteção contra a doença sintomática. Isso reforça que, embora a proteção contra a dengue sintomática já inicie após 14 dias da primeira dose, a busca ativa pelas equipes de saúde e a conscientização sobre o retorno para receber a segunda dose são indispensáveis para consolidar a proteção máxima da população.

A suspensão e a investigação da vacina do Butantan para dengue estão afetando de alguma forma o produto de vocês, inclusive em termos de recusa ou hesitação? Vivian Lee: Diante da decisão do Ministério da Saúde de suspender, de forma preventiva, a vacinação contra a dengue com o imunizante do Instituto Butantan em razão da apuração de relatos de eventos adversos graves, a Takeda esclarece que os casos não têm nenhuma relação com a vacina Qdenga.

Nós lamentamos profundamente o ocorrido. Reconhecemos que episódios que envolvem investigações em saúde pública podem gerar dúvidas e levar à hesitação vacinal. E reforçamos o relevante trabalho de esclarecimento de especialistas, sociedades médicas e veículos de imprensa junto à população na luta contra a desinformação. Pelos dados que temos disponíveis nos últimos dois anos e meio de imunização com Qdenga, e embora mais de 8 milhões de brasileiros já tenham iniciado a vacinação, sabemos que a conclusão do esquema de doses ainda é um desafio de saúde pública. Mas é importante levar em consideração que nossa vacina é resultado de mais de 20 anos de desenvolvimento, tendo passado por um robusto programa clínico com ensaios clínicos conduzidos em 14 países, somando mais de 28 000 participantes.

 O principal estudo de eficácia e segurança demonstrou importante redução de 80,2% dos casos de dengue sintomática e uma redução ainda mais expressiva de 90,4% dos casos de hospitalização após 12 e 18 meses da segunda dose, respectivamente. Por isso o produto recebeu recomendação oficial da OMS para ser utilizado em programas de vacinação em massa em países endêmicos. Hoje Qdenga está aprovada em 41 países e disponível em 31 deles. Tanto no Brasil como no restante do mundo, a Takeda mantém um rigoroso sistema de farmacovigilância e monitoramento de dados de vida real. Nosso foco permanece em garantir o suprimento regular e apoiar as autoridades sanitárias na conscientização sobre a importância de combater a dengue e manter a saúde pública.

Entidades vêm alertando que o Super El Niño e as mudanças climáticas devem escalar os casos de dengue na próxima temporada. Com que projeção trabalham e quais os riscos à população? Vivian Lee: A Takeda acompanha continuamente as projeções epidemiológicas e os alertas emitidos pelas autoridades sanitárias e centros de pesquisa. Após a maior epidemia de dengue da história do país em 2024, que teve mais de 6,5 milhões de casos e 6.300 óbitos, a combinação das alterações climáticas decorrentes do El Niño com o aumento de temperatura e das chuvas acendeu um alerta crítico do Ministério da Saúde e da Fiocruz para o período 2026/2027. Modelagens preditivas da InfoDengue/Fiocruz integradas ao Ministério da Saúde projetam a ocorrência de cerca de 1,7 milhão de casos de dengue para 2027. Este número pode variar de 1 milhão até 5,6 milhões de casos. Considerando o impacto de um super El Niño, a Região Sudeste poderá ter um aumento de cerca de 60% dos casos e a Região Sul, um aumento de cerca de 20% dos casos. Um fator de atenção adicional apontado por especialistas para a próxima temporada é a tendência de aumento na circulação do sorotipo DENV-3, especialmente na região Sudeste. Como grande parte da população não tem imunidade contra esse sorotipo específico por ele não ter circulado de forma predominante nos últimos anos, o risco de novas epidemias e de complicações graves torna-se ainda mais acentuado.

Temos um horizonte preocupante então? Vivian Lee: Essa previsão reforça a urgência de uma resposta integrada de saúde pública, combinando o combate rigoroso ao vetor à conscientização sobre a prevenção, na qual a imunização com o esquema completo de duas doses desempenha um papel fundamental na proteção sustentada contra as formas graves e hospitalizações pela doença, conforme demonstrado no já citado estudo publicado há pouco no Brasil, realizado em um cenário com circulação de múltiplos sorotipos. Diante desse cenário, entendemos que o maior risco para a população é a falsa sensação de segurança ou a tendência de se acostumar com a existência da doença. A dengue tornou-se uma enfermidade com a qual as pessoas aprenderam a conviver no dia a dia, criando a falsa percepção de que a gravidade só atinge os outros. No entanto, a dengue não escolhe idade, gênero ou classe social, ou seja, todos estamos suscetíveis. Os relatórios mostram que a gravidade da doença costuma ser subestimada: em dados consolidados de um único ano, a dengue chegou a causar nove vezes mais mortes do que acidentes automobilísticos em rodovias, 35 vezes mais óbitos do que afogamentos em piscinas e 44 vezes mais mortes do que engasgos. Por isso, o alerta precisa ser antecipado. As mudanças climáticas estendem o período de circulação do mosquito, exigindo um combate contínuo contra a dengue: eliminação de focos do mosquito como água parada, uso de repelentes, conscientização sobre a gravidade da doença e a vacinação para a população elegível antes do pico do verão.

Quais os objetivos da nova campanha da Takeda? Rodrigo Martins: O movimento #SemSombraDeDengue ganha uma nova fase com a campanha “Não se engane: a dengue é pior do que parece”. Nosso objetivo central é resgatar o senso de urgência da população e combater o distanciamento com que a doença é tratada no país. Com o passar dos anos, a dengue tornou-se uma enfermidade com a qual as pessoas “aprenderam a conviver”, acreditando que casos graves só acontecem com os outros. No entanto, a dimensão do problema é alarmante: o Brasil concentra mais de 70% de todos os casos de dengue registrados no mundo, o que reforça que a dengue não é um problema pontual ou secundário, mas uma emergência permanente. Para vencer esse ruído e combater a hesitação vacinal, apostamos em uma abordagem inovadora e fundamentada em evidências. Ao conectar a mortalidade da dengue com acidentes urbanos conhecidos do cotidiano (como trânsito, engasgos e afogamentos), materializamos e dimensionamos o risco real da doença na rotina das pessoas.

De que modo esperam superar fatores como a hesitação vacinal? Rodrigo Martins: A hesitação vacinal é combatida com informação transparente, rigor científico e linguagem acessível. A campanha desdobra-se em um ecossistema multicanal, da TV aberta ao ambiente digital, contando com a participação de influenciadores de divulgação científica, como Mari Krüger, e médicos especialistas para esclarecer dúvidas sobre eficácia, segurança e esquema vacinal completo. Toda a jornada direciona o público ao portal Conheça Dengue, onde reforçamos a mensagem central: no combate à dengue, a melhor defesa é a prevenção integrada, unindo a eliminação dos focos do mosquito à imunização de quem pode ser vacinado.

Há perspectivas de se ampliar o uso de Qdenga no SUS? Rodrigo Martins: A Takeda mantém um diálogo institucional contínuo, transparente e cooperativo com o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Cabe ressaltar que definições sobre expansão de faixas etárias, elegibilidade de públicos para vacinação ou alterações no calendário do Programa Nacional de Imunizações (PNI) são prerrogativas exclusivas do Ministério da Saúde e das autoridades sanitárias. Do ponto de vista de suprimento, a capacidade fabril global da Takeda encontra-se totalmente estabilizada. Com a rede de produção operando de forma regular, a companhia sinalizou oficialmente às autoridades sanitárias brasileiras que possui capacidade operacional para fornecer volumes adicionais de doses ao SUS, além daqueles já pactuados em contrato, estando pronta para apoiar o Governo Federal em eventuais ampliações de faixa etária no PNI. Essa estabilização também garante o atendimento contínuo e sem restrições de disponibilidade de doses para o mercado privado (clínicas, hospitais e farmácias) em todo o país, convergindo com a nossa meta global de alcançar a produção de 100 milhões de doses anuais até 2030.

Já vimos alguns imunizantes que dependiam de duas doses passarem a ter dose única para atingir as metas de imunização dos programas públicos – foi o caso da vacina de HPV, por exemplo. Essa seria uma possibilidade para a vacina da dengue? Rodrigo Martins: Em relação aos esquemas posológicos, enfatizamos que a indicação aprovada na bula pela Anvisa e respaldada pelo estudo clínico global de Fase 3 (TIDES) é o esquema de duas doses, indispensável para garantir a resposta imune sustentada e a proteção eficaz contra os quatro sorotipos do vírus (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4). A importância do esquema completo foi recentemente ratificada pelo estudo independente da equipe do professor Julio Croda. Quaisquer discussões, estudos de vida real ou avaliações científicas adicionais conduzidos em parceria com instâncias de saúde pública seguem rigorosamente os trâmites regulatórios e os protocolos vigentes, sendo comunicados formalmente ao mercado à medida que avançarem as deliberações técnicas.