Agronegócios
Mulheres já representam 40% dos produtores rurais que tomam decisões no Brasil
Estudo da ABAG aponta avanço da participação feminina no campo, com maior escolaridade, autonomia na gestão, uso de tecnologias e desempenho favorável no crédito.
BATANEWS/OPR
As mulheres já representam 40% dos 10,7 milhões de produtores rurais que tomam decisões no agronegócio brasileiro. O dado integra o estudo “Perfil da Mulher do Agronegócio Brasileiro: 10 anos de transformação e avanços', divulgado pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) durante o Global Agribusiness Festival (GAFFFF), na última sexta-feira (02).
A pesquisa, realizada em parceria com a Serasa Experian, Fran6 Pesquisa e Sistema FAESP/SENAR, aponta mudanças no perfil das produtoras e gestoras rurais ao longo da última década. Além da maior participação nas decisões, o levantamento identifica avanços na formação profissional, na propriedade dos negócios, no uso de ferramentas tecnológicas e no relacionamento com o mercado de crédito.
Os dados da Serasa Experian mostram que as produtoras apresentam índices de inadimplência inferiores aos registrados entre os homens. Entre as grandes proprietárias rurais, a taxa chega a 6,85%, enquanto entre as mulheres da Região Sul o índice é de 5,4%.
O levantamento também relaciona a atuação feminina a indicadores de conformidade ambiental. Nas propriedades sob comando exclusivo de mulheres, os registros de restrições legais e passivos ambientais representam uma parcela menor. Nos dados analisados sobre trabalho escravo e desmatamento do Prodes, os CPFs masculinos concentram 77% e 67% das ocorrências, respectivamente. Entre os femininos, os percentuais são de 5% e 20%.
Para Sabrina Muñoz, gerente executiva de GeoData e Analytics – Agronegócio da Serasa Experian, o cruzamento das bases evidencia a situação econômica e o comportamento das produtoras diante das obrigações financeiras e socioambientais. “Prudência financeira aliada a um rigor exemplar em práticas de compliance socioambiental e ESG coloca a gestão feminina em um patamar de altíssima confiabilidade para o mercado de crédito e para o desenvolvimento de um agronegócio sustentável', afirma.
A mudança também aparece na relação das mulheres com os próprios negócios rurais. Segundo a pesquisa quantitativa conduzida pela Fran6 Pesquisa, 91% das entrevistadas são proprietárias, total ou parcialmente, da atividade rural. O percentual representa um aumento de dez pontos percentuais em relação ao levantamento realizado dez anos atrás.
A formação profissional acompanhou esse movimento. Entre 2015 e 2026, a proporção de gestoras com pós-graduação passou de 24% para 46%. Atualmente, 77% das entrevistadas possuem ensino superior completo.
A presença das mulheres na rotina das propriedades também está associada à incorporação de novas ferramentas de gestão e produção. Drones, sistemas de telemetria, softwares de gestão e outras tecnologias digitais fazem parte do cotidiano de 71% das gestoras ouvidas pela pesquisa. Desse grupo, as produtoras afirmam operar essas soluções de maneira independente ou parcialmente independente.
Para Gislaine Balbinot, diretora executiva da ABAG, a transformação observada na última década envolve diferentes dimensões da atividade rural. “Nos últimos dez anos, a mulher ampliou sua presença nas decisões estratégicas do agronegócio e conquistou maior espaço na propriedade e na condução dos negócios. Os dados mostram uma transformação que envolve formação, tecnologia, gestão e acesso ao crédito', destaca.
A pesquisa qualitativa, que reuniu 25 entrevistas em profundidade com produtoras, pecuaristas e agroindustriais de diferentes regiões brasileiras, também identificou desafios que permanecem presentes na trajetória profissional das mulheres.
Entre os pontos relatados estão barreiras culturais, conciliação entre trabalho e vida pessoal e a importância das redes de apoio e do cooperativismo. O estudo aponta ainda características de gestão associadas ao diálogo, planejamento e visão integrada do negócio.
A sustentabilidade aparece relacionada tanto à eficiência produtiva quanto à preservação do patrimônio rural. Entre as práticas mencionadas pelas entrevistadas estão o uso de bioinsumos, biodigestores, manejo de recursos hídricos, ações voltadas ao bem-estar animal e utilização de ferramentas de genômica.
Para Juliana Farah, presidente da Comissão Semeadoras do Agro da FAESP, o acesso à capacitação e à informação contribui para ampliar a participação feminina nas decisões e na condução das atividades. “A presença das mulheres no campo se fortalece quando conhecimento, autonomia e capacidade de decisão caminham juntos', afirma.
O estudo da ABAG reúne dados de mercado e informações obtidas nas pesquisas quantitativa e qualitativa para traçar um panorama das mudanças na atuação feminina no agronegócio brasileiro ao longo dos últimos dez anos.





