Condenado e preso, Jair Bolsonaro confirmou o poder do sobrenome nas eleições

Ex-presidente conseguiu impulsionar a candidatura do primogênito, eleger a mulher, dois outros filhos, um irmão e uma imensa bancada

BATANEWS/VEJA


DO CÁRCERE - O capitão: qualquer que seja o resultado final, ele foi considerado o grande vencedor do pleito  (Wilton Junior/Estadão Conteúdo/.)

Se dependesse de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro teria sido a candidata do partido à Presidência da República. O União Brasil, o PP e o Republicanos, as agremiações que formam o chamado Centrão, consideravam o governador Tarcísio de Freitas a melhor opção. Durante semanas foram realizadas pesquisas e sondagens para avaliar a viabilidade eleitoral de ambos. Os levantamentos cravavam uma vitória certa do governador em todos os cenários e apontavam boas chances de sucesso para a ex-primeira-dama.

Havia, porém, um dado curioso: as testagens também mostravam um bom desempenho de qualquer que fosse o candidato com sobrenome Bolsonaro. Eram pequenas as diferenças de intenção de voto em cenários alternados entre Michelle e os filhos Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro. Qualquer um deles, de acordo com as simulações, passaria pelo primeiro turno com certa tranquilidade. Já no segundo turno, as chances de vitória eram relativas. A palavra final caberia a Jair Bolsonaro. Contrariando as ponderações dos aliados, o ex-presidente decidiu arriscar, escalou o filho mais velho para a disputa e, mesmo sem concorrer, foi considerado como o grande vencedor.

Condenado e preso, Jair Bolsonaro foi onipresente na campanha de Flávio. Nos comícios, o capitão estava em bandeiras, retratos emoldurados, camisetas, bonecos infláveis, cartazes e faixas. Nos momentos de maior dificuldade, quando a candidatura parecia balançar, o senador recorreu não só à imagem como também às palavras do pai. Fragilizado politicamente pela repercussão de um vídeo em que Michelle Bolsonaro o acusou de maltratá-la e humilhá-la, Flávio divulgou uma carta na qual o chefe do clã familiar reafirmava que o primogênito era seu porta-­voz. Duas semanas depois, na convenção do PL, uma peça gerada por inteligência artificial exibiu um avatar do ex-presidente pedindo que os correligionários recebessem de braços abertos a pessoa que ele havia escolhido para substituí-lo, o “sangue do seu sangue”. Quase cinco meses depois das turbulências provocadas pela revelação de que o senador pedira dinheiro ao dono do Banco Master para financiar uma cinebiografia do pai, Flávio avançou ao segundo turno à frente de Lula e com ares de favorito.

Sem poder se manifestar, Jair Bolsonaro foi um eficiente cabo eleitoral — e não só do primogênito. A ele pode ser creditada a eleição para o Congresso da esposa, Michelle, dos filhos Carlos e Jair Renan e do irmão Renato, este após sete tentativas frustradas. Os dois primeiros conquistaram vagas no Senado e os dois últimos, na Câmara. A condição de preso do ex-presidente ainda serviu de mote para o sucesso de uma imensa bancada de deputados e senadores — quase todos impulsionados pela promessa de anistiar os condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023 e garantir liberdade para o “mito”.

O PL, hoje uma legenda epitomizada pelo casamento político do capitão com Valdemar Costa Neto, presidente do partido, contará, a partir de 2027, com 28 senadores e 121 deputados, habilitando-se a lançar nomes competitivos para presidir as duas casas. Para o futuro do capitão, essa força política pode ter como desdobramento prático a conquista da própria liberdade. Flávio já comentou que, se eleito, subirá a rampa do Palácio do Planalto, no dia 5 de janeiro, acompanhado do pai. A única possibilidade de isso acontecer antes da posse está num pedido de revisão criminal que será analisado pelo Supremo Tribunal Federal. O relator do caso é o ministro Nunes Marques, que diz esperar as eleições para anunciar sua decisão.

A estratégia traçada pelo ex-presidente para balizar as candidaturas ao Congresso e aos governos estaduais, em sua grande maioria, também se mostrou acertada. Um bom exemplo é o site lançado por Flávio com 49 nomes de candidatos apoiados pelo pai para o Senado. Trinta deles saíram vitoriosos das urnas. Todos carregam a bandeira pelo impeachment de ministros do STF. Dos vinte governadores eleitos em primeiro turno, onze são próximos ao bolsonarismo. Para o cientista político da Universidade de Brasília (UnB) Murilo Medeiros, o sobrenome Bolsonaro tornou-se uma marca eleitoral. “Ele comunica ao eleitor uma identidade política, um posicionamento ideológico e um sentimento de pertencimento”, avalia.

Os resultados do primeiro turno encorajaram alguns aliados do ex-­presidente a vislumbrar seu retorno à política. Em entrevista depois da abertura das urnas, Valdemar Costa Neto declarou que, se for eleito, Flávio vai libertar seu pai, o que transformaria o capitão em um “forte candidato” à Presidência da República em 2030. “O povo vai querer Jair Bolsonaro”, comemorou o cacique. Ex-ministra de Bolsonaro, a senadora Damares Alves reforçou o coro. “O nosso sonho é Bolsonaro voltar para a urna”, afirmou. Com um segundo turno pela frente, o próprio Flávio tentou conter os ânimos e negou haver possibilidade de o pai disputar as eleições daqui a quatro anos. Reiterando sua proposta de aprovar uma emenda para acabar com a reeleição à Presidência da República, o senador disse que, se for promulgada, a proibição valerá para parentes de até terceiro grau.

A pressa do Zero Um em jogar um balde de água fria na empolgação de seus aliados com um renascimento político de Jair Bolsonaro não é sem motivo. A versão original da PEC que o senador apresentou neste ano não contém a tal cláusula que enquadraria parentes e impediria um rodízio familiar na sucessão presidencial. Sem uma mudança constitucional, a jurisprudência atual dá espaço para uma eventual candidatura do capitão, diante da hipótese de sua condenação criminal no Supremo e suas duas sentenças à inelegibilidade no Tribunal Superior Eleitoral serem anuladas. Para isso, segundo a advogada eleitoral Ezikelly Barros, no caso de Flávio se tornar o próximo presidente, Jair Bolsonaro poderia se lançar na corrida ao Planalto em 2030 se o filho renunciasse ao cargo seis meses antes do pleito. Nesse cenário cheio de condicionantes, o capitão só poderia cumprir um único mandato. É pura futurologia — mas que ganha algum valor com a promessa do Zero Um de conceder indulto ao próprio pai e anistia a todos os condenados por crimes relacionados ao 8 de Janeiro.

A primeira semana depois da rodada inicial de votação deu a dimensão das reviravoltas que se desenham no horizonte para o bolsonarismo e, principalmente, para o líder do movimento. Mentor da candidatura do filho e do mapa eleitoral nos estados, pensado com o objetivo de enfrentar a instância máxima do Poder Judiciário e levar à revisão de sua própria condenação, o ex-presidente demonstrou que ainda mobiliza um grande contingente de eleitores. “A arriscada aposta de Jair em um tudo ou nada em nome da família dele deu certo”, afirma Thomas Conti, professor do Insper. A euforia dos aliados do ex-presidente, portanto, se justifica. Mesmo diante de uma eventual derrota de Flávio Bolsonaro no segundo turno, a força política do capitão já foi comprovada pelas urnas.

Publicado em VEJA de 9 de outubro de 2026, edição nº 3016