Em quase 5 décadas, MS multiplica moradores, rebanhos e safras

Desde 1979, milho substituiu arroz, cidades cresceram e população mais que dobrou

BATANEWS/CGNEWS


Quando Mato Grosso do Sul começou a funcionar, em 1º de janeiro de 1979, o arroz ocupava nas lavouras um espaço 3 vezes maior que o milho. Um em cada 3 moradores vivia no campo, o rebanho bovino acabava de ultrapassar 10 milhões de cabeças e a soja ainda estava longe de se tornar uma das engrenagens da economia estadual, assim como a celulose, que nem figurava nas estatísticas da época.

Quase 50 anos depois, o Estado tem mais que o dobro da população. Para cada tonelada de milho colhida em 1979, hoje são produzidas 95. Na soja, a proporção é de quase 16 para uma. Na cana-de-açúcar, o salto é ainda maior: cada tonelada do início de MS virou 177 toneladas na produção atual.

A transformação aparece nas cidades, nas lavouras, nos rebanhos e na riqueza produzida. Levantamento do Campo Grande News a partir de indicadores e séries históricas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) compara o Estado que começou a funcionar em 1979 com o MS atual (confira o infográfico abaixo).

Como as pesquisas não seguem o mesmo calendário, foram utilizados os anos mais próximos disponíveis: 1979 para a produção agropecuária; 1980 para população e distribuição de renda; 2022 para os dados do último Censo; 2023 para o PIB (Produto Interno Bruto); e 2025 ou 2026 para os indicadores mais recentes.

Vale lembrar que Mato Grosso do Sul foi criado oficialmente em 11 de outubro de 1977, mas o recorte começa em 1979, quando o novo Estado foi instalado, ganhou governo próprio e passou a funcionar administrativamente.

Mais gente nas cidades, menos gente no campo - O primeiro Censo depois da criação de MS contou 1,37 milhão de moradores em Mato Grosso do Sul, em 1980. A estimativa para 2026 chega a 2,95 milhões. Em menos de 5 décadas, o Estado ganhou aproximadamente 1,58 milhão de habitantes e cresceu 115%.

A Capital Campo Grande já concentrava a maioria dos habitantes do Estado e naturalmente cresceu em velocidade ainda maior que o Estado, saindo de 291.777 habitantes em 1980 para 898.100 no Censo de 2022. Em 42 anos, ganhou mais de 606 mil moradores e triplicou de tamanho. O ritmo, porém, perdeu força: o crescimento médio anual, que foi de 5,51% entre 1980 e 1991, caiu para 1,11% entre 2010 e 2022. Para 2026, a estimativa do IBGE apontou 970.843 habitantes.

Rua 14 de Julho, no Centro de Campo Grande (Foto: Campo Grande News/Arquivo) Mas a mudança não ocorreu apenas no tamanho da população. Ela também alterou o lugar onde os sul-mato-grossenses vivem. Em 1980, 919,2 mil pessoas moravam nas cidades e 450,5 mil, no campo. A cada 100 habitantes, 67 estavam em áreas urbanas.

No Censo de 2022, essa proporção chegou a 88 em cada 100. Eram 2,43 milhões de moradores nas cidades e 327,1 mil nas áreas rurais. Enquanto a população total mais que dobrou, o campo perdeu 123,4 mil moradores e passou a produzir muito mais com menos gente.

Mato Grosso do Sul também envelheceu. Em 1980, de cada 100 moradores, 41 eram crianças ou adolescentes com até 14 anos e apenas 3 tinham 65 anos ou mais. Em 2022, eram 22 jovens e quase 10 idosos a cada 100 habitantes. O Estado que nasceu jovem, rural e pouco povoado tornou-se majoritariamente urbano, mais populoso e com participação crescente de idosos.

Arroz sai do centro e milho assume a dianteira - A mudança econômica fica ainda mais visível quando se observa o que saiu das lavouras em cada período. Em 1979, os municípios que formavam Mato Grosso do Sul colheram 457,1 mil toneladas de arroz, 146,5 mil toneladas de milho e 826,7 mil toneladas de soja. O arroz, hoje quase residual na produção estadual, rendia naquele momento mais de 3 vezes o volume do milho.

Em 2025, a fotografia praticamente se inverteu. A produção de milho chegou a 13,93 milhões de toneladas e a de soja, a 13,12 milhões. O arroz recuou para 83,5 mil toneladas.

Na prática, o milho produzido atualmente seria suficiente para repetir 95 vezes toda a colheita de 1979. A produção de soja se multiplicou por quase 16. O arroz, por sua vez, perdeu 81,7% do volume que tinha no nascimento do Estado.

Milharal localizado em Mato Grosso do Sul (Foto: Arquivo/Aprosoja) A cana-de-açúcar protagonizou a maior expansão proporcional. A produção saltou de 312,3 mil toneladas para 55,26 milhões, avanço de 17.594%. O movimento acompanha a chegada das usinas e a consolidação das cadeias do açúcar e dos biocombustíveis. A mandioca também cresceu, de 521,7 mil para 1,51 milhão de toneladas. O trigo percorreu o caminho contrário e recuou de 68,9 mil para 56,4 mil toneladas.

A reportagem reconstruiu os números de 1979 por meio da soma dos resultados municipais da PAM (Pesquisa Agrícola Municipal). Naquele período, o território tinha menos municípios que os atuais 79, porque várias cidades ainda seriam criadas por desmembramento.

Aves avançam 10 vezes e dividem espaço com o gado - O boi continua como uma das imagens mais associadas a Mato Grosso do Sul, mas foram outras criações que apresentaram os maiores crescimentos proporcionais.

O rebanho bovino passou de 10,02 milhões de cabeças, em 1979, para 17,95 milhões em 2025, alta de 79,1%. Enquanto a população mais que dobrou, o número de bovinos não chegou a crescer na mesma proporção.

Entre os suínos, o efetivo saltou de 545,2 mil para 1,96 milhão de animais, avanço de 259,8%. Mas o maior salto ocorreu nos galináceos: eram 3,44 milhões em 1979 e passaram a 35,55 milhões em 2025. Para cada ave criada no início do Estado, agora existem mais de 10.

Granjas proliferaram no setor pecuário de Mato Grosso do Sul (Foto: Divulgação) A expansão mostra que a produção animal deixou de depender quase exclusivamente da pecuária bovina e incorporou cadeias mais intensivas, como a avicultura e a suinocultura. Assim como na agricultura, os números históricos foram obtidos pela soma dos resultados municipais da PPM (Pesquisa da Pecuária Municipal). Os dados de 2025 ainda são classificados como preliminares pelo IBGE.

Economia chega a R$ 184 bilhões, mas renda mantém distância - Não existe um PIB estadual de 1979 calculado pela mesma metodologia utilizada atualmente pelo IBGE. A primeira série das Contas Regionais começou somente em 1985, e as mudanças metodológicas e monetárias impedem a comparação direta dos valores.

No entanto, um retrato recente mostra que Mato Grosso do Sul produziu R$ 184,4 bilhões em bens e serviços em 2023. Em 2025, o rendimento domiciliar mensal por morador chegou a R$ 2.454, acima da média brasileira de R$ 2.316. A média, porém, não mostra como o dinheiro se distribui.

Entre os 10% mais pobres, o rendimento domiciliar por pessoa era de R$ 403 mensais - aproximadamente R$ 13 por dia. No grupo do 1% mais rico, chegava a R$ 18.932 por mês, ou cerca de R$ 631 por dia. Assim, uma pessoa situada no topo da renda recebia, em média, 47 vezes o valor disponível para alguém entre os 10% mais pobres.

Os 10% mais ricos concentravam 36,3% de toda a renda domiciliar do Estado. Já a metade mais pobre da população reunia 20,6%. O índice de Gini, que varia de 0 a 1 e aumenta conforme cresce a desigualdade, ficou em 0,457 em 2025. Em 1980, era de 0,604.

A concentração de renda não é um problema recente. O Censo de 1980 apontava que os 10% de maior renda ficavam com 51,8% de tudo o que era recebido pelas pessoas de 10 anos ou mais que tinham algum rendimento, enquanto a metade mais pobre detinha 13,6%.

Os conceitos empregados em 1980 e 2025 são diferentes, o que impede calcular apenas por essa comparação quanto a desigualdade diminuiu. Os dois retratos, entretanto, mostram que a concentração de renda acompanha Mato Grosso do Sul desde os primeiros anos.

Saneamento não correu na velocidade das lavouras - A urbanização acelerada a partir da década de 1980 aumentou a pressão sobre os serviços de água, esgoto, coleta de lixo, moradia e transporte no Estado. Em 2022, 87,2% dos domicílios estavam ligados à rede geral de água e utilizavam essa rede como principal forma de abastecimento. A coleta de lixo alcançava 90,3% das residências.

O esgoto avançou em ritmo menor. A rede geral, a rede pluvial ou a fossa ligada à rede atendiam 50,4% dos domicílios. Isso significa que, mesmo depois de mais de 4 décadas de urbanização, apenas 1 em cada 2 casas contava com essas formas de esgotamento. Outros 26,3% dos domicílios - mais de 1 em cada 4 - ainda utilizavam fossa rudimentar ou buraco.

Expansão da rede de esgoto em Campo Grande (Foto: Divulgação) As distâncias são maiores nas comunidades indígenas. Em Mato Grosso do Sul, 62,6% dos domicílios com moradores indígenas apresentavam alguma precariedade relacionada ao abastecimento de água, ao esgotamento sanitário ou ao destino do lixo em 2022.

Nesse grupo, 6 em cada 10 casas conviviam com ao menos uma dessas deficiências. O dado expõe que o desenvolvimento econômico não produziu o mesmo resultado em todos os territórios nem alcançou todos os moradores da mesma forma.

A promessa de desenvolvimento que acompanhou a criação do Estado virou toneladas, rebanhos, população e riqueza. A parte ainda incompleta é fazer com que renda, saneamento e infraestrutura avancem na mesma velocidade das colheitadeiras.... veja mais em https://www.campograndenews.com.br/reportagens-especiais/em-quase-5-decadas-ms-multiplica-moradores-rebanhos-e-safras