Policial
O drama de um garoto mostra o que as drogas deixam pelo caminho
Relato durante palestra de juiz põe em discussão o apoio às famílias e o combate ao tráfico na fronteira de MS
BATANEWS/CGNEWS
Durante a palestra de um juiz, adolescente revelou um drama que atravessa sua família: segundo ele, a mãe morreu em consequência do uso de drogas. Depois, a irmã morreu por suicídio. O pai ficou responsável por três filhos, dos quais o garoto é o mais velho.
Ao contar sua história, o adolescente disse que encontra na escola de tempo integral as refeições diárias. Também demonstrou preocupação com o pai, que, em sua percepção, está chegando ao limite diante das dificuldades para cuidar da família.
O relato colocou diante do magistrado uma realidade que exige mais do que explicações sobre direitos e deveres. Um adolescente expôs perdas, dificuldades e o medo de ver o pai sucumbir ao sofrimento. Sua fala merece ser ouvida como um pedido de atenção e proteção.
É uma dimensão do problema das drogas que não cabe nos balanços de apreensões. A dependência pode comprometer a saúde, consumir a renda e romper vínculos. Suas consequências alcançam filhos, companheiros, irmãos e avós, muitas vezes obrigados a enfrentar situações para as quais não têm recursos nem apoio.
Segundo o garoto, a morte da mãe esteve relacionada ao consumo de drogas. Ele também associa a perda da irmã ao sofrimento vivido depois. Essa é sua compreensão da própria história. O suicídio, porém, envolve fatores múltiplos e não pode ser atribuído a um único acontecimento, conforme orienta a Organização Mundial da Saúde.
O que seu depoimento revela é uma família atravessada por perdas sucessivas, um pai sobrecarregado e filhos que precisam de proteção.
Nesse cenário, a escola aparece como apoio concreto. Quando o adolescente diz que ali encontra suas refeições, mostra que a educação em tempo integral também pode oferecer segurança alimentar, convivência e contato com adultos capazes de perceber seu sofrimento.
É preciso valorizar essa presença. Mas a escola necessita de uma rede que responda quando identifica uma criança em dificuldade. Professores não podem carregar sozinhos responsabilidades que exigem atendimento de saúde, assistência social e proteção à infância.
A palestra do juiz abriu espaço para que o adolescente falasse. A responsabilidade do poder público é fazer com que essa escuta tenha consequência. Um relato dessa gravidade precisa encontrar acolhimento e avaliação das necessidades da família, com cuidado para preservar a identidade e a intimidade dos filhos.
A cobrança também alcança a segurança pública. Mato Grosso do Sul faz fronteira com Paraguai e Bolívia e está em rotas do tráfico internacional. Em agosto, uma operação da Polícia Federal investigou a entrada de cocaína proveniente da Bolívia, com passagem por Corumbá e distribuição no Brasil.
Proteger essa fronteira exige presença permanente, inteligência, equipamentos e integração entre as forças de segurança. O tráfico explora brechas e adapta seus caminhos. O Estado precisa acompanhar essa movimentação, interromper o transporte e atingir quem financia e lucra com o crime.
Há atuação das Forças Armadas na faixa de fronteira, inclusive em operações contra o tráfico. A questão é cobrar continuidade, cobertura e eficácia, além de discutir como empregar melhor o efetivo e a estrutura militar em cooperação com as polícias. Uma região estratégica para o país precisa receber recursos e atenção compatíveis com os riscos que enfrenta.
Apreender carregamentos é necessário. Investigar os responsáveis e atingir o dinheiro do tráfico também. Mas a resposta precisa chegar igualmente às pessoas que já enfrentam a dependência e às famílias atingidas por ela.
Isso exige prevenção, tratamento acessível e acompanhamento contínuo. Os Centros de Atenção Psicossocial integram a rede pública de saúde mental e acolhem, entre outras situações, problemas relacionados ao uso prejudicial de álcool e outras drogas. O serviço precisa estar ao alcance de quem necessita, inclusive com apoio aos familiares.
O adolescente que falou durante a palestra trouxe essa discussão para perto. Por trás das rotas do tráfico e dos números de apreensões existem casas, vínculos, perdas e crianças tentando entender o que aconteceu com suas famílias.
Seu relato exige providências: proteção para os filhos, apoio para o pai e uma rede capaz de agir antes que o sofrimento se agrave.
Diante de um juiz, o garoto encontrou espaço para contar sua história. Agora, precisa encontrar nos serviços públicos o amparo que sua família necessita. Ser ouvido é o começo. Ser protegido é o direito que precisa ser cumprido.





