A Promessa de Mãe: Sete Anos de Fé na Fazenda Tamakavi

Sete anos de fé, devoção e gratidão a Nossa Senhora Aparecida na Fazenda Tamakavi

BATANEWS/NEY OLEGáRIO


Foto: Divulgação

Existem lembranças que o tempo não consegue apagar. Elas ficam guardadas no coração, adormecidas entre as páginas da nossa história, até que um dia, sem aviso, despertam e nos transportam de volta a um tempo em que a vida era simples, a família estava reunida e a fé era uma das maiores riquezas que possuíamos.

Hoje, ao recordar os anos em que morávamos na Fazenda Tamakavi, no município de Itaquiraí, Mato Grosso do Sul, uma lembrança especial me veio à memória, a promessa de minha saudosa mãe, Teresinha Juliano Marques, uma mulher de fé inabalável, que durante sete anos cumpriu sua devoção a Nossa Senhora Aparecida.

Naquela época, nossa família era grande e vivia reunida. Éramos seis irmãos morando em casa, todos debaixo do mesmo teto, ao lado de nosso pai, Lorival Olegário, carinhosamente conhecido como Lorão. Por perto, moravam outros três irmãos, já casados, que também faziam parte daquele universo familiar. Éramos uma família de trabalhadores rurais, arrendatários da Fazenda Tamakavi, onde a vida seguia o ritmo da natureza, do trabalho na lavoura e da fé em Deus.

Nossa casa tinha uma característica que jamais esquecerei, era coberta de tabuinhas de cedro e havia sido construída pelas mãos de nosso pai, de meus irmãos e do saudoso João Garcia, que morava conosco. Era uma casa simples, como tantas outras daquele tempo, mas cheia de vida, de histórias e de lembranças que hoje valem mais do que qualquer riqueza material.

Foi naquele cenário de simplicidade que minha mãe fez uma promessa a Nossa Senhora Aparecida. Durante sete anos, ela realizaria uma novena em homenagem à Padroeira do Brasil, encerrando as celebrações no dia 12 de outubro, data dedicada a Nossa Senhora Aparecida.

E assim aconteceu.

A novena que movimentava toda a fazenda
Nos nove dias que antecediam o encerramento da novena, eram escolhidas nove casas da comunidade. A cada noite, os moradores se reuniam em uma residência diferente para rezar o terço. Minha mãe conduzia as orações, acompanhada de outras senhoras e de tantas pessoas que compartilhavam daquela mesma fé.

A devoção não conhecia distância, cansaço ou dificuldade. As famílias se organizavam, as casas recebiam os visitantes e, a cada noite, a comunidade se aproximava ainda mais.

Naqueles encontros, não se rezava apenas por si mesmo. Rezava-se pela saúde dos filhos, pela proteção das famílias, pela chuva para a lavoura, pela boa colheita do algodão e por tantas outras necessidades que faziam parte da vida de quem trabalhava na roça.

Cada Ave-Maria carregava uma esperança. Cada oração era também um agradecimento. E, quando chegava o dia 12 de outubro, a fazenda inteira parecia entrar em festa.

Os preparativos de dona Teresinha
Durante a semana que antecedia o grande dia, minha mãe se dedicava aos preparativos. Entre os afazeres da casa e as responsabilidades de uma mãe de família numerosa, ela encontrava tempo para preparar as famosas bolachinhas de trigo, assadas no forno a lenha.

Aquele cheirinho de biscoito assando devia anunciar, mesmo sem palavras, que a festa estava chegando.

Também preparava vários baldes de suco, o conhecido K-Suco, daqueles de saquinho, misturado à água fria retirada na hora do poço. Naquela época, geladeira era artigo raro na fazenda. Praticamente só os patrões tinham esse privilégio.

Mas quem precisava de geladeira quando havia a boa vontade, a criatividade e o coração generoso de uma mulher como dona Teresinha?

As bolachinhas eram feitas com carinho, e o suco, mesmo simples, era servido com alegria. Tudo era preparado para receber os moradores que viriam participar da procissão e das orações.

Não havia luxo, mesas sofisticadas ou grandes estruturas. Havia o essencial, fé, união, generosidade e o desejo sincero de agradecer a Nossa Senhora Aparecida pelas graças alcançadas.

A festa de Nossa Senhora Aparecida
Quando o dia 12 de outubro se aproximava, nós, crianças, jovens e adolescentes, já ficávamos ansiosos. Era um dos acontecimentos mais esperados do ano.

Para nós, era a festa de dona Teresinha.

A notícia corria entre as famílias, e centenas de moradores da Fazenda Tamakavi e vizinhanças se preparavam para participar daquele momento tão especial. Um dos pontos altos da celebração era a procissão de Nossa Senhora Aparecida. A imagem era conduzida em um andor de madeira, construído pelas mãos habilidosas do saudoso João Garcia.

E lá ia a procissão, percorrendo seu trajeto sob o céu da fazenda, com a imagem da Padroeira sendo carregada com respeito e devoção.

Durante o percurso, eram cantados louvores a Nossa Senhora. As pessoas rezavam, faziam seus pedidos, clamavam por milagres e agradeciam pelas graças recebidas.

Havia lágrimas discretas, olhares de esperança e corações cheios de confiança. Cada família levava consigo suas preocupações, seus sonhos e suas necessidades, mas todos caminhavam unidos pela mesma fé.

Para os mais velhos, aquele era um momento especial de encontro, de conversa, de agradecimento a Deus e de pedidos por uma boa colheita de algodão.

Para os jovens, também era uma oportunidade de reencontrar os amigos, rever as mocinhas e conhecer gente de outras casas. Afinal, em uma comunidade rural, onde a rotina era marcada pelo trabalho e pela distância entre as moradias, encontros como aquele tinham um significado enorme.

E para as mães das sete crianças que se vestiam de anjinhos, era um momento de graça e emoção.

Para minha mãe, porém, havia um significado ainda mais profundo, era a realização de mais um ano de sua promessa, cumprida com amor, devoção e gratidão pelos milagres recebidos.

A chuva que chegou como uma bênção
Entre tantas lembranças daquela época, uma história ficou especialmente marcada em minha memória.

Naquele tempo, o plantio do algodão na Fazenda Tamakavi só era autorizado a partir do início de outubro. Essa era uma das regras estabelecidas pelo senhor Zé Teixeira, proprietário da fazenda, onde nossa família e outras famílias trabalhavam como arrendatárias.

E, como acontecia todos os anos, o plantio começava quando chegava a época permitida.

Certo ano, praticamente todos já haviam terminado de plantar. O algodão começava a nascer, trazendo a esperança de uma boa safra. Mas, naquela semana, ou talvez nas semanas que antecederam a celebração, o sol forte castigava a terra.

Os dias eram quentes, a chuva não vinha e as pequenas plantas recém-nascidas começavam a murchar. Alguns pés já estavam morrendo, e a preocupação tomava conta dos agricultores.

Quem viveu da lavoura sabe o que isso significa. Cada semente colocada na terra representa trabalho, investimento, expectativa e esperança. Ver a plantação sofrer logo nos primeiros dias era motivo de angústia para qualquer família.

Foi então que, durante uma daquelas procissões, sob um céu limpo e um sol forte, minha mãe e outras senhoras elevaram suas preces a Nossa Senhora Aparecida. Enquanto caminhavam, pediam sua intercessão para que viesse a chuva, para que as lavouras fossem salvas e para que o esforço de tantos trabalhadores não fosse perdido.

A procissão seguia seu trajeto. As orações continuavam, os cânticos ecoavam e a fé daquelas mulheres permanecia firme. Elas pediam com o coração. Pediam como quem conhece as dificuldades da vida e sabe que, muitas vezes, a esperança é o que mantém uma família de pé.

Ao final da procissão, depois do terço rezado e de as bolachinhas e o K-Suco terem sido servidos, os moradores começaram a conversar, como era costume naqueles encontros.

Foi então que algo começou a chamar a atenção de todos. No céu, antes tão limpo, começaram a aparecer nuvens. E não eram nuvens quaisquer, aos poucos, o céu foi se fechando, e nuvens carregadas de chuva começaram a se formar.

A esperança, que até então estava nas orações, passou a estar também diante dos olhos de todos.

E, antes do final daquela tarde, a chuva começou a cair.

Imaginem a alegria daquela gente.

A terra, que há dias sofria com o calor, finalmente recebia a água tão esperada. O algodão, ainda pequeno e frágil, ganhava uma nova oportunidade de continuar crescendo. E os agricultores, que carregavam no peito a preocupação com a lavoura, puderam respirar aliviados.

Para muitos de nós, aquela chuva foi muito mais do que um fenômeno da natureza. Foi recebida como uma resposta às orações, uma graça alcançada pela intercessão de Nossa Senhora Aparecida.

Naquele dia, muitos tiveram a certeza, dentro de sua fé, de que haviam presenciado mais um milagre. E assim essa história passou a fazer parte das lembranças e dos testemunhos que cresci ouvindo. Não apenas de minha mãe, mas também das outras senhoras que caminhavam ao lado dela naquela jornada de devoção.

Eram histórias contadas com a convicção de quem havia vivido aqueles momentos. Histórias que atravessaram os anos e permaneceram vivas na memória de uma comunidade inteira.

A infância que também era uma festa
Mas a vida na Fazenda Tamakavi não era feita apenas de trabalho, orações e responsabilidades. Também havia espaço para a alegria, para as brincadeiras e para aquela infância que, vista de hoje, parece ter sido vivida em outro mundo.

Quando não estávamos ajudando os pais nos afazeres, encontrávamos maneiras de transformar qualquer espaço em um lugar de diversão.

Havia as cantigas de roda, as brincadeiras de passar anél e dar volta, o pé na lata, o betis e o esconde-esconde, além dos jogos de futebol nos campos clandestinos que construímos sem autorização do senhor Zé Teixeira, que não permitia campos de futebol em suas fazendas. Bastava reunir algumas crianças para que a brincadeira começasse.

Também havia as famosas burquinhas, nossas bolinhas de gude, que provocavam disputas intermináveis. Jogávamos biroca, paredinha, triângulo e cabeça, sempre com aquela vontade de ganhar mais uma partida e a certeza de que, depois de uma discussão ou de uma risada, logo estaríamos todos brincando novamente.

Não existiam celulares, videogames ou tantas distrações como as de hoje. Nossa diversão estava nas amizades, na imaginação e na convivência. A gente inventava brincadeiras, criava regras, fazia desafios e passava horas junto dos irmãos, primos e amigos.

Eram tempos em que uma lata, algumas bolinhas de gude, um espaço de terra batida e um grupo de crianças eram suficientes para fazer uma tarde inteira valer a pena.

Hoje, quando recordamos aqueles dias, percebemos que não eram apenas brincadeiras. Eram laços sendo construídos, amizades que nasciam, histórias que se formavam e momentos que, sem que soubéssemos, se tornariam algumas das lembranças mais preciosas de nossas vidas.

Aquelas crianças cresceram. Os adolescentes se tornaram adultos. Muitos se casaram, constituíram suas próprias famílias e seguiram caminhos diferentes.

Mas a memória daquela infância permanece.

E, junto dela, permanece a lembrança das procissões, dos terços, das bolachinhas de forno a lenha, do K-Suco servido aos visitantes e da imagem de Nossa Senhora Aparecida percorrendo os caminhos da fazenda.

Quando os sete anos chegaram ao fim
O tempo passou, e os sete anos da promessa de minha mãe chegaram ao fim. Para dona Teresinha, era a conclusão de um compromisso assumido diante de sua fé, uma caminhada de devoção e gratidão que ela havia cumprido ano após ano.

Mas, para nós, aquela conclusão também trouxe um sentimento de saudade.

Já imaginávamos como seriam os anos seguintes sem aquela longa semana de terços, sem a novena, sem a procissão e sem a festa que reunia tanta gente da comunidade.

As crianças que antes acompanhavam tudo com os olhos cheios de curiosidade estavam crescendo. Algumas já eram adolescentes. Muitos jovens haviam se casado, e aqueles que ainda eram pequenos começavam a entender melhor o significado de tudo aquilo.

A vida continuou seu curso, como sempre acontece. A fazenda continuou sendo cenário de trabalho, de convivência e de tantas outras histórias. As famílias seguiram suas jornadas, cada uma enfrentando suas lutas e construindo seu próprio caminho.

Mas a fé não terminou com o fim da promessa.

Os terços continuaram acontecendo. As pessoas continuaram rezando, agradecendo e pedindo a proteção de Deus e de Nossa Senhora Aparecida.

Porque a fé verdadeira não depende apenas de uma festa ou de uma promessa. Ela permanece na vida cotidiana, no coração das mães, nas orações silenciosas, na esperança de uma boa colheita e na força necessária para enfrentar as dificuldades.

E foi assim que aprendemos, mesmo sem compreender plenamente naquela época, que a fé de nossos pais era um dos maiores patrimônios que poderíamos receber.

Dona Teresinha, uma mulher que deixou sua marca
Hoje, ao recordar minha saudosa mãe, Teresinha Juliano Marques, percebo que aquela promessa representava muito mais do que sete anos de novenas e procissões.

Representava a força de uma mulher que acreditava. Uma mãe que, mesmo diante das dificuldades de uma vida simples na roça, encontrava tempo e disposição para reunir pessoas, preparar alimentos, organizar celebrações e manter viva a devoção de toda uma comunidade.

Ela não precisava de grandes recursos para realizar sua festa. Precisava apenas de sua fé, de suas mãos trabalhadoras e da disposição daqueles que acreditavam no mesmo propósito.

Minha mãe era admirada por muitas pessoas daquela comunidade. Sua devoção, seu exemplo e sua maneira de viver deixaram marcas que o tempo não conseguiu apagar.

E hoje compreendo que, enquanto nós, crianças, esperávamos ansiosos pelas bolachinhas, pelo suco, pela procissão e pelos encontros com os amigos, ela vivia algo muito mais profundo.

Para nós, era um dia de festa.

Para ela, era um dia de agradecimento, de renovação espiritual e de cumprimento de uma promessa feita com o coração.

Talvez, naquela época, não tivéssemos maturidade para compreender a dimensão daquele gesto. Mas hoje, olhando para trás, entendemos que estávamos presenciando uma demonstração extraordinária de amor, fé e perseverança.

E como seria bom se pudéssemos voltar por alguns instantes àquela casa coberta de tabuinhas de cedro, ouvir novamente a voz de nossa mãe conduzindo as orações, sentir o cheiro das bolachinhas assadas no forno a lenha e ver a comunidade se reunindo para acompanhar a imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Como seria bom rever nosso pai, Lorival Olegário, o nosso querido Lorão, e todos aqueles que fizeram parte daquela história. Rever o saudoso João Garcia, lembrar das famílias vizinhas e reencontrar os amigos que dividiram conosco a infância e a juventude na Fazenda Tamakavi.

Muitos daqueles momentos já não podem ser repetidos. Algumas pessoas queridas já partiram, e outras seguiram seus caminhos. O tempo levou a presença física de muitos, mas não conseguiu levar tudo o que eles representaram em nossas vidas.

Porque existem pessoas que continuam presentes mesmo depois de partir. Permanecem nas histórias que contamos, nos ensinamentos que carregamos e nas lembranças que despertam dentro de nós.

Minha mãe é uma dessas pessoas. Uma história que merece ser contada
Hoje, ao escrever estas lembranças, sinto que não estou recordando apenas a história de minha família. Estou recordando também a história de uma comunidade rural, de homens e mulheres que enfrentavam o sol, a seca, as dificuldades da lavoura e os desafios da vida, mas que nunca deixavam de encontrar um motivo para agradecer a Deus.

É a história de uma época em que a união entre os moradores era uma riqueza, em que a palavra tinha valor, em que as famílias se ajudavam e em que a fé atravessava as estradas de terra, entrava nas casas simples e se manifestava em cada oração.

É a história de uma mãe chamada Teresinha, que durante sete anos cumpriu sua promessa a Nossa Senhora Aparecida e, com seu exemplo, ensinou a todos nós algo que só o tempo nos permite compreender plenamente.

A promessa terminou, mas seu significado permaneceu.

A procissão deixou de acontecer como antes, mas a lembrança continua caminhando conosco.

As bolachinhas acabaram, o K-Suco foi servido pela última vez naquela celebração, a infância passou e os anos seguiram seu curso. Entretanto, a fé que motivou tudo aquilo continua viva na memória de quem teve o privilégio de presenciar aqueles momentos.

E, se hoje posso contar essa história, é porque a vida me concedeu o privilégio de ter vivido aquela época e de ter sido filho de uma mulher que fez da fé uma maneira de viver.

Obrigado, minha mãe, dona Teresinha Juliano Marques, por ter nos ensinado, com seu exemplo, que a fé não precisa de riquezas para ser grandiosa. Ela precisa de um coração sincero, de perseverança e de amor.

Que Nossa Senhora Aparecida continue intercedendo por nossa família, protegendo nossos caminhos e acolhendo aqueles que já partiram.

E que Deus permita que essas lembranças jamais se apaguem, para que nossos filhos, netos e futuras gerações saibam que, um dia, na Fazenda Tamakavi, em Itaquiraí, existiu uma mulher de fé que reuniu centenas de pessoas em torno de uma promessa, de uma imagem e de uma devoção que marcou para sempre a história de todos nós.

Porque algumas promessas duram sete anos.

Mas o exemplo de uma mãe de fé dura por toda a eternidade.

Em memória de Teresinha Juliano Marques, de nosso pai, Lorival Olegário, o querido Lorão, do saudoso João Garcia e de todos aqueles que fizeram parte dessa inesquecível história da Fazenda Tamakavi.

Nossa Senhora Aparecida, rogai por nós.