Livro defende diálogo como saída para mal-estar da vida acelerada

BATANEWS/FOLHA


Marco Aurélio Nogueira, cientista político e autor do livro 'Como melhorar a vida que vivemos: pensar, agir, dialogar' - Simon Plestenjak - 8.jun.18/Folhapress

O avanço tecnológico, o excesso de informação e a hiperaceleração da vida moderna nos bombardeiam com estímulos a todo instante. O crescimento das metrópoles, a insegurança nos grandes centros urbanos e a cultura da individualidade afastaram as pessoas umas das outras.

Soma-se ainda a intensa polarização política, reforçada durante o período eleitoral, e a descrença em instituições que apresentavam verdades compartilhadas —como a justiça, a ciência e a imprensa. Essas características geram um mal-estar generalizado que afeta a saúde mental sem que nos demos conta.

Para responder a esse cenário de sobrecarga informacional, desatenção e polarização, o cientista político Marco Aurélio Nogueira defende recuperar o diálogo e as mediações entre as pessoas e as instituições.

A tese está em 'Como melhorar a vida que vivemos: pensar, agir, dialogar', ensaio da editora Ateliê de Humanidades que já pode ser encomendado pelos leitores.

O livro tem cinco partes, cada uma com seis pequenos ensaios, que podem ser lidos fora de ordem. Os temas abordam o consumo e a relação com as máquinas inteligentes, as cidades, as divisões políticas e geracionais, a mediação e a educação.

Nogueira usa o termo 'hipermodernidade' para descrever a forma como estrutura capitalista e tecnológica, marcada pela inteligência artificial e pela interação nas plataformas, organiza o período em que vivemos.

'Nós recebemos muita informação e não temos condições de processar tudo isso com facilidade, nenhum de nós. E, por outro lado, perdemos com muita facilidade o foco', diz.

O resultado é o que o livro chama de mal-estar 'sutil e capcioso', que se renova continuamente. É sutil, explica o autor, porque as pessoas não têm plena consciência dele.

'É como se esse mal-estar estivesse adormecido na sociedade, mas se materializando a todo momento. Isso cria uma espécie de ambiente em que se perde confiança, se perde segurança, se perde capacidade de diálogo, e se ganha muito sofrimento', explica.

Um dos exemplos desse mal-estar é o consumismo compulsivo. Segundo o autor, as pessoas já não consomem o que necessitam, mas o que as mídias digitais as induzem, movidas por um desejo artificial.

Isso acontece tanto com bens materiais quanto com sugestões em plataformas de streaming, que moldam também as escolhas dos filmes que assistimos e das músicas que ouvimos, por exemplo.

As cidades, tema da segunda parte, são outro foco de desgaste. Criadas como abrigo e oferta de trabalho e cultura, as metrópoles passaram a ser vividas, na avaliação de Nogueira, como lugar de medo e insegurança. Ele cita o trânsito de São Paulo e lembra de trabalhadores que passam até quatro horas por dia em deslocamento.

É aí que entra o diálogo, que o autor defende como um método coletivo para lidar com esse mal-estar. Não se trata de chegar a consenso, mas de manter uma interação inteligente com quem pensa diferente. 'A capacidade de interagir com as pessoas que não pensam igual a mim é o principal trunfo que nós todos temos.'

A proposta passa por recuperar as mediações que organizavam o debate público. Na avaliação do autor, partidos, Legislativo, Supremo, escola e imprensa filtravam e davam sentido ao que circulava. Sem esse papel, o cidadão ficou sozinho diante de mais informação do que é possível processar com facilidade.

Na polarização, o diálogo evita que o outro vire inimigo. Segundo o autor, estigmatizar fecha a chance de convencer. 'Quando você estigmatiza demais, você perde a chance da persuasão', diz.

Para ele, o diálogo também protege a democracia: impede que só a voz dos mais fortes seja ouvida e estimula o pensamento crítico, o que ajuda a separar informação de desinformação.

Nogueira admite o limite da proposta: ampliar os diálogos não basta, mas sem eles nenhuma ação transformadora se sustenta. Apesar do diagnóstico, ele diz na apresentação do livro que evita o pessimismo. 'Não entramos num beco sem saída. Sou um otimista cauteloso.'