Educação autoritária causa transtornos psicológicos em crianças

BATANEWS/FOLHA


Coerção e violência aumentam o risco de transtornos mentais em crianças - Dmitrii Marchenko /Zoonar/picture alliance via DW

Todos os pais conhecem essa situação: a criança recebe uma tarefa e a ignora solenemente. Quando a paciência esgota, começam os gritos. Não é agradável, mas acontece. O problema surge quando o estilo de educação é marcado principalmente por interações negativas desse tipo.

Um estudo recente realizado na China concluiu que uma educação rígida e autoritária aumenta o risco de sintomas depressivos e comportamento agressivo nas crianças. Com isso, os pesquisadores confirmam algo que outros especialistas também já observaram.

A educação rígida e autoritária vai além de episódios isolados de perda de controle. Trata-se, na verdade, de 'diferentes formas de violência, disciplina e controle', afirma o psiquiatra e psicólogo Stephan Bender, que dirige a Clínica e Policlínica de Psiquiatria, Psicossomática e Psicoterapia da Infância e Adolescência do Hospital Universitário de Colônia, na Alemanha.

Agressões físicas ou coerção corporal são apenas uma forma de violência. A outra é de natureza psicológica: críticas ofensivas, linguagem agressiva, manipulação ou privação de afeto. É bem possível que as crianças obedeçam imediatamente, mas essa obediência motivada pelo medo tem um preço.

'Uma educação violenta promove situações de impotência, e estas são um importante fator de risco para a depressão', afirmou Bender à DW. 'Uma educação excessivamente rígida de forma crônica constitui, de fato, uma traumatização crônica.'

Segundo o psiquiatra, crianças que vivenciam repetidamente a experiência de não serem consideradas como pessoas, com seus próprios sentimentos, podem ter mais dificuldade em perceber e regular suas emoções.

Quem é criado sob violência e sem liberdade também não desenvolve a percepção de sua própria capacidade de agir e influenciar o ambiente –o senso de autoeficácia, termo que se refere à convicção de ser capaz de superar desafios e alcançar objetivos por meio das próprias habilidades.

Para que essa convicção se desenvolva, as crianças precisam aprender que conseguem lidar com problemas de forma autônoma e bem-sucedida. A autoeficácia é importante para aprender a lidar com as emoções, controlar o próprio comportamento e desenvolver autoconfiança. Uma educação baseada na violência e na coerção impede isso, explica Bender.

Isso traz consequências bastante distintas para as crianças. Em sua prática clínica, Bender observa que os meninos tendem mais à chamada externalização: o sofrimento vivenciado é projetado para fora e se manifesta frequentemente por meio de um comportamento social problemático, podendo chegar até a condutas criminosas.

As meninas, por outro lado, tendem mais à internalização, diz o psiquiatra e psicólogo: 'Ou seja, elas desenvolvem problemas emocionais, depressão, transtornos de ansiedade ou até mesmo transtornos alimentares, sobretudo a partir da puberdade'.

Evelien van Assche é psiquiatra e médica-chefe da Clínica de Saúde Mental do Hospital Universitário de Münster. Ela encontrou indícios de que uma educação autoritária deixa marcas no DNA, podendo assim aumentar o risco de depressão mais tarde na vida.

Como parte de sua tese de doutorado, a psiquiatra pesquisou se uma educação autoritária se reflete na epigenética de jovens participantes do estudo.

A epigenética estuda a relação entre influências ambientais e o DNA e ajuda a determinar quando e quais genes são ativados ou desativados. Isso ocorre, entre outros mecanismos, por meio da chamada metilação dos genes. Trata-se de um processo de regulação gênica que influencia quais características físicas ou psicológicas serão manifestadas.

O estudo de Van Assche baseou-se em pesquisas anteriores com gêmeos idênticos, nos quais um deles sofria de depressão. Dois grupos independentes descobriram que o gêmeo com depressão apresentava uma maior variação na metilação do DNA do que o gêmeo saudável. 'Repetimos essa análise com a nossa amostra', diz Van Assche à DW.

O resultado foi semelhante: os jovens que descreveram o ambiente familiar como sendo mais violento também apresentaram uma maior variação na metilação do que o grupo de controle. No entanto, a própria Van Assche afirma que suas pesquisas fornecem indícios, nada além disso. Ainda assim, são indícios que coincidem com os resultados de outros estudos.

A psiquiatra Van Assche afirma que o essencial é que os pais estejam emocionalmente disponíveis: ouvir os filhos e levar a sério suas preocupações e medos.

'Se existe uma boa relação de base, então um momento isolado de irritação tem, naturalmente, um peso diferente.' Além da validação emocional da criança, regras e limites também são importantes, pontua. Essas expectativas devem ser comunicadas de forma aberta e clara, e a ultrapassagem de limites deve acarretar consequências adequadas.

'Quanto mais novas as crianças, maior é o papel desempenhado pelos pais', observou Stephan Bender. Por isso, sua equipe desenvolveu treinamentos nos quais os pais aprendem a melhor maneira de apoiar seus filhos em diversas situações.

Para Van Assche, é importante ressaltar que a maioria dos pais acerta em muitos aspectos. No entanto, a relação com os pais é fundamental para o bem-estar psicológico das crianças. Mais um motivo para ouvirmos atentamente os nossos filhos.