Brasil encurta distância dos EUA e pode assumir liderança nas exportações agrícolas

Agro brasileiro exportou US$ 169,2 bilhões em 2025, próximo do resultado americano. Possível ultrapassagem exige comparar a mesma cesta de produtos e o mesmo período.

BATANEWS/OPR


Foto: Cláudio Neves/Portos do Paraná

O Brasil se aproximou dos Estados Unidos em receita com exportações do agronegócio e pode superar o concorrente americano, mas a confirmação dessa mudança depende dos resultados de 2026 e da metodologia utilizada. Em 2025, as vendas externas brasileiras somaram US$ 169,2 bilhões, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), enquanto as americanas ficaram em aproximadamente US$ 171 bilhões, conforme o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). A diferença corresponde a pouco mais de 1% do faturamento brasileiro.

A proximidade entre os valores sustenta a possibilidade de ultrapassagem, mas ainda não comprova uma liderança mundial. As estatísticas nacionais abrangem conjuntos diferentes de mercadorias.

Além disso, quando a União Europeia é considerada como bloco, ela aparece à frente dos dois países no ranking do USDA. Portanto, a eventual liderança brasileira precisa ser delimitada: entre países, em valor exportado e sob uma classificação comum de produtos.

Soja e carnes sustentam crescimento O desempenho brasileiro em 2026 mantém essa possibilidade em discussão. Entre janeiro e setembro, o agronegócio exportou US$ 133,6 bilhões, crescimento de 5,5% sobre o mesmo período de 2025. O acréscimo de US$ 7 bilhões veio principalmente da soja em grãos, que adicionou US$ 5,6 bilhões às receitas, seguida pela carne bovina in natura, com US$ 1,6 bilhão, e pela carne de frango in natura, com US$ 1,3 bilhão. As altas compensaram perdas em outros produtos.

O resultado, porém, não permite antecipar a posição no encerramento do ano. O ranking considera faturamento em dólares, sujeito tanto à quantidade embarcada quanto aos preços internacionais. Em setembro, por exemplo, a receita brasileira com soja em grãos cresceu 11,9%, embora o volume tenha aumentado apenas 0,3%. A valorização do preço médio foi determinante para o desempenho.

Também não há indicação de recuo uniforme das vendas americanas. No relatório de agosto, o USDA elevou de US$ 176,5 bilhões para US$ 179,5 bilhões sua previsão de exportações agrícolas no ano fiscal de 2026. Esse período vai de outubro de 2025 a setembro de 2026, enquanto o balanço anual brasileiro considera janeiro a dezembro. Comparar diretamente os dois resultados produziria uma conclusão sobre intervalos diferentes.

Nas commodities, Brasil já está à frente Em uma parcela importante desse comércio, a ultrapassagem já ocorreu. Estudo do Insper Agro Global, publicado em fevereiro de 2025, identificou que o Brasil se tornou, em 2023, o maior país exportador de commodities agropecuárias e agroindustriais. Em 2024, essas vendas alcançaram US$ 137,7 bilhões, US$ 14,4 bilhões acima do resultado americano, segundo a classificação adotada pelos pesquisadores.

A diferença aparece nas chamadas especialidades do agronegócio, categoria que reúne produtos como frutas, vegetais, alimentos preparados, vinhos e cervejas. Nesse grupo, os Estados Unidos exportaram US$ 75,5 bilhões em 2024, contra US$ 10,7 bilhões do Brasil. O faturamento americano foi cerca de sete vezes maior. A comparação ajuda a explicar por que a liderança brasileira em commodities ainda não representa, automaticamente, a primeira posição no conjunto das exportações do setor.

China amplia receitas e exposição A demanda chinesa é decisiva para a trajetória brasileira. Em 2025, a China comprou US$ 55,3 bilhões em produtos do agro nacional, equivalentes a 32,7% das exportações do setor. A União Europeia respondeu por 14,9%, e os Estados Unidos, por 6,7%. No mesmo ano, as vendas agrícolas americanas à China recuaram para US$ 8,4 bilhões, retirando o mercado chinês dos cinco principais destinos dos EUA, segundo o USDA.

Essa distribuição evidencia o peso das relações comerciais com Pequim, mas também a exposição brasileira às decisões de um único comprador.

Na avaliação do Insper, a concentração em poucos produtos e destinos torna o país mais sensível a mudanças nas compras externas.

Assim, uma eventual primeira posição em receita deverá ser acompanhada por outros indicadores: diversificação dos mercados, composição da pauta e participação de produtos com maior diferenciação. São essas variáveis que permitem avaliar quanto da aproximação com os EUA resulta de expansão duradoura e quanto depende de preços e deslocamentos temporários da demanda.