El Niño ganha força e muda os cálculos do agro para 2026/27

Fenômeno já está ativo no Pacífico e tem 81% de probabilidade de atingir intensidade muito forte no fim de 2026. Excesso de chuva no Sul, calor e irregularidade hídrica em outras regiões conectam o risco das lavouras ao custo da alimentação, às pastagens e ao desempenho dos rebanhos.

BATANEWS/OPR


Imagens: Giuliano De Luca/ChatGPT/OP Rural

O Brasil encerra a safra 2025/26 com produção estimada em 360,1 milhões de toneladas de grãos e começa a planejar o próximo ciclo sob uma condição climática distinta. Em menos de um mês, o El Niño deixou de ser apenas uma possibilidade apontada pelos modelos e passou a ser um fenômeno efetivamente instalado no Pacífico Equatorial. Agora, a discussão avançou da ocorrência para a intensidade: a probabilidade de um episódio muito forte chegou a 81%.

O dado consta do boletim divulgado em 9 de julho pelo Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA/CPC). O órgão projeta que o fenômeno continuará ganhando força até o fim do ano e atribui 97% de probabilidade à sua permanência até pelo menos o início de 2027.

A categoria ‘muito forte’ corresponde a uma anomalia relativa igual ou superior a 2°C no índice RONI, calculado a partir da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4. A probabilidade de 81% refere-se ao trimestre entre outubro e dezembro. No começo de julho, o índice semanal estava em 1,2°C, o que significa que a intensidade máxima ainda é uma projeção, embora sustentada por elevado grau de confiança dos modelos. A NOAA também ressalta que um El Niño mais intenso aumenta a possibilidade de ocorrência dos efeitos historicamente associados ao fenômeno, mas não determina, por si só, a intensidade das chuvas ou da seca em cada região.

Natália Grigol, pesquisadora de Pecuária do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Esalq/USP (Cepea): “O El Niño não deve ser interpretado como um choque climático uniforme sobre o Brasil. O risco não está apenas em uma eventual seca. O excesso de chuvas também pode trazer consequências importantes para a pecuária'

Para o agronegócio brasileiro, essa ressalva é decisiva. O El Niño não produz uma única condição climática sobre o país. Enquanto o Sul tende a enfrentar volumes maiores de chuva, o centro-norte fica mais exposto a temperaturas elevadas, precipitações abaixo da média e irregularidade na distribuição da água. Entre esses extremos estão as lavouras, as pastagens, a produção de volumosos, o custo da ração e o desempenho dos animais.

“O El Niño não deve ser interpretado como um choque climático uniforme sobre o Brasil. O risco não está apenas em uma eventual seca. O excesso de chuvas também pode trazer consequências importantes para a pecuária, comprometendo manejo, qualidade de forragens, sanidade, logística e até a conservação de alimentos para os rebanhos', afirma Natália Grigol, pesquisadora de Pecuária do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Esalq/USP (Cepea).

O primeiro boletim do Painel El Niño 2026-2027, elaborado por INPE, Inmet, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil Nacional, confirma a configuração do fenômeno em junho. Para o trimestre julho-agosto-setembro, a previsão indica maior probabilidade de chuvas acima da média em áreas do Sul e precipitações abaixo da média no centro-norte do país.

As temperaturas devem permanecer acima dos padrões históricos em grande parte do território durante o segundo semestre, aumentando a possibilidade de ondas de calor e incêndios. No curto prazo, a menor precipitação em partes do Centro-Oeste pode favorecer a colheita do milho segunda safra, do algodão e da cana-de-açúcar. No Sul, a umidade pode beneficiar algumas culturas de inverno. O mesmo boletim, entretanto, alerta que o calor pode prejudicar as pastagens e a preparação das áreas para o próximo plantio.

Essa diferença temporal é importante. Condições que ajudam a concluir a colheita de uma cultura podem criar dificuldades para a implantação da seguinte. Da mesma forma, a chuva capaz de melhorar a oferta de água e estimular o crescimento das forrageiras pode, quando persistente, impedir a entrada de máquinas, dificultar o manejo dos animais, reduzir a qualidade da silagem e ampliar os problemas sanitários.

“A leitura mais adequada é tratar o El Niño de 2026 como um fator de aumento da volatilidade climática e produtiva, com impactos regionais bastante distintos', resume Natália.

O ponto de partida para 2026/27 é uma produção elevada. O décimo levantamento da Conab, divulgado em 14 de julho, estima que o Brasil colherá 360,1 milhões de toneladas de grãos em 2025/26, crescimento de 2,2% sobre a temporada anterior. A área cultivada chegou a 83,5 milhões de hectares.

A soja responde por 180,6 milhões de toneladas, 5,3% acima do ciclo passado. Para o milho, considerando as três safras, a projeção é de 141,7 milhões de toneladas. Somadas, as duas culturas concentram quase 90% da produção nacional e formam a base de parte expressiva da alimentação utilizada na pecuária intensiva, nos confinamentos e na produção leiteira.

Esses volumes pertencem à safra que está sendo encerrada e não representam uma projeção para 2026/27. Eles mostram, porém, o tamanho da produção que entra no novo ciclo e a dependência entre lavouras e cadeias pecuárias.

No Centro-Oeste, a principal variável será a regularidade do retorno das chuvas. Se a estação úmida começar com interrupções prolongadas, o produtor poderá enfrentar dificuldades para definir o momento de semeadura da soja. O atraso ou a necessidade de replantio também pode comprimir a janela do milho segunda safra, deslocando parte do desenvolvimento da cultura para períodos de menor disponibilidade hídrica.

No Sul, o risco tem sinal oposto. A persistência das chuvas pode reduzir os períodos disponíveis para semeadura e aplicação de defensivos, elevar a pressão de doenças, dificultar operações mecanizadas e aumentar perdas de solo em áreas vulneráveis à erosão. O impacto dependerá menos do volume acumulado no conjunto da estação do que da distribuição das precipitações e da existência de intervalos suficientes para o trabalho no campo.

Para o mercado, o efeito pode surgir antes de qualquer perda física. Projeções climáticas alteram preços futuros, decisões de compra, formação de estoques, contratação de fretes e estratégias de comercialização. Na avaliação do Cepea, o risco sobre os grãos não deve ser medido apenas pela possibilidade de quebra de safra. Qualidade, disponibilidade regional, logística e relação entre preços do milho, do farelo de soja e das proteínas animais também entram nessa conta.

Na pecuária de corte, a ligação entre clima e resultado econômico passa primeiro pela pastagem. Calor elevado, atraso das chuvas ou períodos secos durante a retomada da estação úmida reduzem a velocidade de rebrota, a qualidade da forragem e a capacidade de suporte das áreas. O problema pode aparecer no ganho de peso, mas não termina nele.

Nos sistemas de cria, a condição corporal das matrizes determinará parte do desempenho reprodutivo do ciclo seguinte. O período entre maio e outubro é estratégico para preparar as fêmeas que entrarão na estação de monta. Quando a disponibilidade e a qualidade do pasto caem, o pecuarista precisa aumentar a suplementação, reduzir a lotação ou antecipar a venda de animais. Cada alternativa produz efeitos diferentes sobre custo, receita e oferta futura de bezerros.

“A condição nutricional da fêmea nesse período influencia diretamente a eficiência reprodutiva e todo o ciclo produtivo seguinte. Oscilações climáticas podem ter efeitos que se prolongam por meses', explica Natália.

O risco, portanto, não se encerra com a regularização das chuvas. Matrizes que chegam à estação reprodutiva com escore corporal inadequado podem apresentar menor fertilidade e reduzir a taxa de prenhez. O reflexo produtivo aparece posteriormente, na quantidade de bezerros nascidos e na capacidade de reposição do rebanho.

A pressão também alcança a terminação. Confinamentos e sistemas de suplementação intensiva ficam expostos ao comportamento do milho, do farelo de soja e dos volumosos. Mesmo sem escassez nacional, problemas regionais de produção, qualidade ou transporte podem elevar o custo da dieta. Em propriedades dependentes do pasto, a necessidade de fornecer suplemento por mais tempo altera a margem por animal.

A pecuária leiteira reúne praticamente todas as vias de impacto do El Niño: produção de volumosos, preço do concentrado, disponibilidade de água, conforto térmico, sanidade e logística.

No Centro-Oeste e no Sudeste, o calor e a irregularidade das chuvas podem reduzir o crescimento das pastagens e comprometer a produção de silagem. Temperaturas elevadas, especialmente quando combinadas com alta umidade, dificultam a dissipação de calor pelas vacas. Animais de maior produção reduzem o consumo de matéria seca, desviam energia para a termorregulação e podem apresentar queda na produção de leite e no desempenho reprodutivo.

O controle depende de sombra, ventilação, aspersão, fornecimento adequado de água e ajuste da dieta. Isso exige energia, infraestrutura e manejo, acrescentando custos a sistemas que já precisam acompanhar a variação dos preços do milho, do farelo e dos volumosos.

No Sul, a maior disponibilidade de chuva pode favorecer pastagens e reservas hídricas, mas o excesso cria outro conjunto de problemas. Lama nos acessos, currais e áreas de permanência aumentam a exposição dos animais à contaminação ambiental e favorecem mastite e afecções de casco. A umidade também pode dificultar a produção e a conservação da silagem, prejudicar estradas rurais e comprometer a regularidade da coleta de leite.

Não há, portanto, uma recomendação única para todos os produtores. No centro-norte, o planejamento precisa priorizar água, reservas forrageiras, lotação e conforto térmico. No Sul, drenagem, conservação de alimentos, condições de acesso e prevenção sanitária ganham peso. Em ambos os casos, acompanhar apenas a previsão mensal de chuva será insuficiente: a tomada de decisão exigirá observar distribuição das precipitações, temperatura, umidade do solo, condição das pastagens e custo dos alimentos.

A probabilidade de 81% de um El Niño muito forte não autoriza prever uma quebra generalizada da safra nem uma retração automática da produção pecuária. Ela muda, contudo, o horizonte das decisões.

Para os grãos, entram no cálculo a umidade disponível no momento do plantio, a duração dos intervalos sem chuva, a possibilidade de replantio e a preservação da janela da segunda safra. Para a pecuária, pesam o orçamento forrageiro, a condição corporal das matrizes, a disponibilidade de água, a lotação e a capacidade de proteger os animais do calor ou do excesso de umidade.

O efeito econômico pode surgir antes da seca, da enchente ou da queda de produtividade. Compra antecipada de insumos, formação de estoques, maior consumo de energia, prolongamento da suplementação e mudanças na comercialização já alteram o custo de produção. É nessa passagem entre o risco climático e a decisão dentro da propriedade que o El Niño 2026/27 começa a produzir seus primeiros efeitos.

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