Novos tratamentos permitem destruir o câncer sem impor cirurgias que mutilam órgãos

Trata-se de uma guinada vitoriosa que ainda conserva a qualidade de vida dos pacientes

BATANEWS/VEJA


AVANÇO - Terapia para combater tumor no reto: o uso de drogas pode vir a livrar o paciente da radical amputação (Pony Wang/Getty Images)

Antes de a médica brasileira Angelita Habr-Gama (1933-2026) apresentar ao mundo o revolucionário protocolo Watch and Wait (observar e esperar, na tradução literal), a maioria das pessoas com câncer de reto, a porção final do aparelho digestivo, era submetida a operações drásticas que resultavam na amputação dessa região. Isso, claro, tinha consequências, sendo uma delas passar a conviver com uma colostomia, uma bolsa por onde as fezes podem ser escoadas, por vezes de forma permanente.

A cirurgiã pioneira demonstrou que nem todo paciente precisaria encarar essa sina: se houvesse uma resposta adequada à químio e à radioterapia, seria possível apenas monitorar, sem a necessidade de ir direto para o bisturi. Nascia, assim, uma nova perspectiva de abordar o problema. Mas ainda havia uma limitação: em uma parcela das pessoas com o diagnóstico, o tumor não podia ser derrotado sem a intervenção invasiva. Com o avanço da medicina, agora até esse cenário tem tudo para mudar. No congresso anual da Sociedade Europeia de Oncologia Médica, recém-ocorrido em Madri, especialistas celebraram os resultados de uma medicação que leva à remissão da doença sem a mutilação do intestino — exemplo notável de uma tendência na oncologia pautada pela preservação do corpo — e da vida.

O remédio testado é um tipo de imunoterapia, que recruta as defesas do organismo para subjugar o câncer. Ele foi avaliado em 154 pacientes com tumor de reto avançado que ainda apresentavam uma alteração genética propícia ao tratamento. Após pelo menos um ano de uso do dostarlimabe, 76% dos participantes não apresentaram mais evidências da enfermidade. Em 98 voluntários, todos os sinais visíveis e detectáveis desapareceram doze meses depois. “É o que a Angelita começou a preconizar lá atrás, agora com a possibilidade de preservação do órgão para mais pacientes”, afirma o oncologista Paulo Hoff, titular da Academia Nacional de Medicina. “É um tratamento que, ao evitar o efeito combinado de químio, radioterapia e colostomia permanente pós-cirurgia, melhora muito a qualidade de vida.”

Os resultados com a droga, desenvolvida pela farmacêutica GSK, levaram o órgão regulatório americano, a FDA, a aprovar em ritmo acelerado a nova indicação. No Brasil, ela já foi submetida à Anvisa e a expectativa é que seja autorizada no primeiro semestre de 2027. Essa transformação no tratamento não diz respeito apenas ao câncer retal. “Nunca tivemos tantos avanços na oncologia para evitar a mutilação dos pacientes”, diz o coloproctologista Ulysses Ribeiro Júnior, professor da Faculdade de Medicina da USP. A guinada começou com o câncer de mama.

Se no século passado muitas mulheres tiveram de passar por cirurgias que devastavam as mamas e os tecidos no entorno, hoje boa parte delas se beneficia de procedimentos menos radicais. Um trunfo obtido com o progresso nas técnicas cirúrgicas e o desenvolvimento de medicamentos. “Sabemos que a cirurgia combinada com o tratamento hormonal e, em alguns casos com quimioterapia, é mais importante do que a extensão da operação em si”, diz o oncologista Carlos Barrios, diretor do Centro de Pesquisa em Oncologia do Hospital São Lucas, em Porto Alegre.

Cortar menos, nesse caso, não significa correr maior risco de ver a doença voltar. “Evoluímos de um tratamento com cirurgia mutiladora para uma abordagem de conservação do órgão, e isso com toda a segurança.” Um percurso que também pode ser trilhado quando se enfrentam outros tumores, como de pulmão e estômago (veja o quadro abaixo).

É evidente que nem sempre é possível poupar o órgão — e, em algumas circunstâncias, isso é particularmente desafiador. Um exemplo é o câncer de bexiga. Apesar dos ganhos no tratamento, em casos mais avançados a remoção completa da estrutura é indicada para impedir que as células tumorais se espalhem.

“Não perder a bexiga é um desejo de todo mundo, inclusive de nós, médicos, mas ainda precisamos retirá-la para salvar o paciente”, diz o oncologista Fabio Schutz, da BP — Beneficência Portuguesa de São Paulo. Contudo, as vitórias galgadas pela imunoterapia abrem a perspectiva de que até essa história mude. Afinal, agora preservar o corpo também pode ser sinônimo de preservar a vida.

Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2026, edição nº 3020