Política
Briga pelo Congresso promete incendiar mais uma vez o embate entre governo e oposição
Passada a eleição presidencial, as atenções da classe política se voltam para o comando do Legislativo
BATANEWS/VEJA
O senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) já se mostrou um político de variados talentos. A habilidade para seduzir os colegas, independente do partido ou da coloração ideológica, é um deles. Outro é a capacidade de usar esse primeiro talento para formar maiorias e conseguir consensos em que todos quase sempre saem ganhando alguma coisa. Foi assim que, na condição de azarão, ele derrotou o veterano Renan Calheiros (MDB-AL) quando disputou pela primeira vez a presidência do Congresso, em 2019, prometendo ser um escudeiro do governo Jair Bolsonaro.
Foi assim também que ele conseguiu se reeleger em 2025 — dessa vez se apresentando como apoiador do governo Lula. E é exatamente assim, apostando numa nova aliança circunstancial com o Palácio do Planalto, que Alcolumbre pretende ser reconduzido ao cargo. Num aceno aos petistas, ele articulou na última terça-feira, 3, a aprovação da chamada PEC da Segurança Pública, tirando do texto a polêmica redução da maioridade penal e empurrando a discussão do tema para a Câmara dos Deputados. Em campanha aberta, o senador quer garantir mais dois anos no posto e pilotar, ao seu tempo e à sua maneira, propostas e projetos controversos que estarão em pauta a partir do ano que vem.
Os talentos do senador amapaense serão mais uma vez colocados à prova. Para continuar presidindo o Congresso, Alcolumbre precisa conquistar o voto de no mínimo 41 dos 81 senadores da legislatura que começa em fevereiro. Em tese, ele inicia a campanha em desvantagem, com o apoio de partidos que reúnem apenas onze senadores — cinco do União Brasil e seis do PP, siglas que formam uma federação. Também em tese, o senador Rogério Marinho, lançado formalmente como candidato de oposição, teria de imediato o apoio dos 29 senadores de sua legenda, o PL.
O desafio de Marinho, portanto, seria cabalar mais doze votos, enquanto Alcolumbre necessitaria de mais trinta. No papel de candidato do Planalto, conta com o apoio da bancada governista, o que lhe daria mais dezesseis votos dos senadores do PT, PSB, PDT e Rede. O Novo, por sua vez, já anunciou que seus três senadores cerrarão fileiras com Marinho. Feitas as contas, o oposicionista teria 32 votos na largada, ante 27 do atual presidente.
O favoritismo do senador potiguar, porém, é ilusório. Nada garante, por exemplo, que os 29 senadores do PL votarão nele. O mesmo vale para a contabilidade otimista de Davi Alcolumbre, que já anunciou ter 48 votos assegurados. Pode ser um blefe, mas pode não ser. O fato é que há muitos interesses em jogo na disputa pela chefia do Congresso. Do ponto de vista institucional, o detentor do posto tem a prerrogativa de definir os projetos que serão levados à votação e ditar o calendário para analisar indicações presidenciais a todas as embaixadas, à presidência e às diretorias do Banco Central, a centenas de cargos estratégicos em bancos públicos, empresas estatais e aos mais variados postos no governo.
Do ponto de vista pragmático, o presidente do Senado tem prerrogativas muito valiosas. É ele quem conduz as principais negociações envolvendo a distribuição de bilhões de reais em emendas parlamentares, autoriza a criação de Comissões Parlamentares de Inquérito, além de ser o terceiro na linha sucessória em caso de ausência do presidente da República. Tudo isso junto representa uma enorme fonte de poder.
Em campanha aberta há meses, o atual presidente tem ofertado aos colegas cargos estratégicos em bancos públicos, empresas estatais, autarquias e agências reguladoras. Aos senadores mais antigos lembra da generosidade com que administrou no passado a destinação de emendas aos congressistas. “Ele (Alcolumbre) realmente pode cooptar votos. Como? Com um sorriso bonito? Um abraço fraterno? Não. Com aquilo que ele pode oferecer: verbas, vantagens e certos atalhos”, disse Marinho em reunião com aliados. Aos recém-chegados, especialmente aqueles com pendências judiciais que podem chegar ao Supremo Tribunal Federal (STF), acena com alguma dose de proteção. Alcolumbre sabe que quase metade da bancada de oposição eleita está citada em algum tipo de investigação. Por isso, traições não só são possíveis como esperadas. A aposta é a de que o instinto de sobrevivência dos senadores possa desequilibrar os rumos da disputa.
O acesso irrestrito de Alcolumbre a determinados magistrados do STF é conhecido em Brasília. O senador se apresenta como uma barreira contra eventuais investidas que tenham a Corte como alvo. Nos últimos anos, por exemplo, foram protocolados mais de 110 pedidos de impeachment de ministros do Supremo. O presidente do Congresso não permitiu que nenhum deles avançasse. Há duas semanas, em uma reunião reservada com juízes, ele lembrou aos convidados que sua presença na cadeira de presidente é uma garantia de que o tribunal continuará blindado. Antes considerada tabu entre políticos de diferentes espectros partidários, a possibilidade de cassar um integrante do Supremo ganhou chances reais de sair do papel depois que a direita elegeu uma bancada hostil ao Judiciário que terá na próxima legislatura 49 parlamentares, apenas cinco a menos do que os 54 necessários para levar adiante o julgamento de um ministro por crime de responsabilidade.
Davi Alcolumbre também é conhecido por transitar sem dificuldades entre governo e oposição. Tornou-se credor dos governistas por ter segurado o quanto pode a abertura de uma CPI para apurar o escândalo de fraudes do INSS, foco de desgaste para o Planalto por mirar o sindicalista José Ferreira da Silva, irmão de Lula, conhecido como Frei Chico, e o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, primogênito do presidente. Quando a CPI enfim foi instalada, o governo já tinha ressarcido parte dos aposentados e a investigação terminou em pizza. Para cortejar os oposicionistas, promete que, se reeleito, estenderá a mão ao ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por golpe de Estado, com uma proposta de anistia ou um indulto humanitário que seria estendido também aos envolvidos nos ataques do 8 de Janeiro — uma investida que pode estimular algumas traições entre os oposicionistas.
O compromisso, nesse caso, depende menos do senador e mais de uma confluência de fatores, todos fora de seu controle. Um indulto, por exemplo, teria de partir do presidente Lula, o que é altamente improvável. Já a anistia esbarra em uma resistência aparentemente intransponível. Pelo menos seis dos atuais dez ministros do Supremo dizem ser inconstitucional conceder o benefício a condenados por crimes contra o Estado democrático. Atento a essas movimentações, Rogério Marinho cogita pressionar seus aliados a expor publicamente a cédula de votação em uma espécie de seguro contra puxadas de tapete.
Se depender exclusivamente do PL, que se tornou a maior agremiação do Congresso, a pauta número 1 do Senado será o impeachment do ministro do STF Alexandre de Moraes, desafeto do bolsonarismo. Ex-coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência, Marinho também promete levar adiante pautas defendidas na corrida presidencial, como a revisão da reforma tributária, o fim da reeleição para presidente da República, a extinção do foro privilegiado e a anistia aos condenados por golpe de Estado, entre eles, claro, Jair Bolsonaro.
A disputa pelo comando do Congresso deve ter mais um complicador. Defenestrada nas negociações que tentaram colocá-la como vice na chapa de Flávio Bolsonaro, Tereza Cristina (PP-MS) anunciou que também pretende disputar a presidência do Congresso, mesmo depois de seu partido já ter anunciado publicamente o apoio a Davi Alcolumbre. “Rogério Marinho e eu conversamos muito sobre esse assunto, até por sermos do mesmo campo. A minha candidatura está mantida e a dele também. Vamos ver mais para frente. Temos noventa dias para isso. Quero ser a primeira mulher presidente do Senado”, declarou.
A senadora conta com o apoio explícito de Damares Alves (Republicanos-DF) e a simpatia de Michelle Bolsonaro (PL), eleita pelo Distrito Federal. “A Tereza reúne dureza e austeridade com serenidade para tocar o impeachment de ministros do Supremo”, disse Damares a VEJA. Ex-ministra da Agricultura no governo de Jair Bolsonaro, Tereza foi vetada como candidata a vice na chapa de Flávio depois que caciques de seu partido concluíram que a neutralidade naquele momento poderia ser recompensada com um alívio em relação às investigações do escândalo do Banco Master. Esse, aliás, é um outro fator que pode pesar a favor da candidatura de Alcolumbre.
Como se sabe, há um grupo respeitável de políticos e figurões da República que mantinha relações nebulosas com Daniel Vorcaro, o dono do Master. O senador é visto por aliados e até pelos detratores como um dique contra o avanço de investigações incômodas. Ele engavetou todos os pedidos de instalação de CPI. O empenho, nesse caso, envolve interesses pessoais. O presidente do Senado tinha familiares e aliados no fundo de previdência do Amapá (Amprev), que investiu 400 milhões de reais em papéis podres do banco, e, como mostrou uma reportagem de VEJA, era interlocutor constante do banqueiro. Alcolumbre também é próximo do ministro Alexandre de Moraes, que, além de alvo dileto dos pedidos de impeachment, é citado, junto com Dias Toffoli, em diferentes episódios de proximidade com o ex-dono do Master.
Há quem enxergue que a eleição para a presidência do Congresso pode envolver um pacto daqueles em que todos cedem alguma coisa para no final todos saírem ganhando. “O evento mais importante para o futuro do Brasil segue em organização célere e discreta: o mega-acordão para abafar simultaneamente todos os escândalos que atingem poderosos nos Três Poderes”, postou o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) em uma rede social.
“Será interessante ver como os senadores vão se comportar na eleição, especialmente aqueles eleitos com compromissos efusivos de combate à corrupção e investigação de ministros do STF”, completou. O jogo do poder pelo controle do Senado já começou e a decisão da disputa, no início de 2027, determinará os rumos do Congresso nos próximos dois anos. Pode ainda facilitar ou dificultar a vida de autoridades do Judiciário e do Executivo, incluindo a do presidente Lula.
Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2026, edição nº 3020
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