Meio ambiente
Mesmo após as cheias, seca extrema e El Niño ameaçam o futuro do Pantanal
O fenômeno climático intensifica a previsão de calor acima da média e chuvas irregulares no bioma
BATANEWS/MURILO MEDEIROS
Focos de fogo no inverno acendem alerta no Pantanal, que pode enfrentar nova temporada crítica de incêndios. Por enquanto, o Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul (CBMMS) afirma que não há situação extraordinária na região. O maior risco está nos próximos meses, diante da previsão de calor acima da média, chuvas irregulares e intensificação do El Niño.
Em junho, os bombeiros atenderam 23 ocorrências de incêndio em vegetação no Pantanal de Mato Grosso do Sul. No mesmo mês de 2025, foram registradas 15 ocorrências. Houve um aumento de 770,7% da área queimada no bioma em comparação com o mesmo período de 2025. Apesar do crescimento, a corporação considera que os registros permanecem dentro do comportamento esperado para a época do ano.
A presença de água na planície pantaneira ainda ajuda a limitar o avanço do fogo. Embora o Rio Paraguai esteja em nível inferior ao registrado em 2025, a situação é significativamente melhor do que a vivida em 2024, ano marcado por seca severa e grandes incêndios. Naquele ano, 27,1 mil km² do Pantanal foram consumidos pelo fogo, número inferior apenas ao registrado em 2020, quando 39,7 mil km² foram queimados.
Neste momento, a maior disponibilidade de água contribui para evitar um cenário semelhante ao de 2024. No entanto, as condições podem mudar conforme a estação seca avança e a vegetação perde umidade. O fenômeno El Niño pode provocar ondas de calor e períodos de seca fora de época, intensificando o risco de queimadas.
Chuva ou seca?
O alerta consta em nota técnica do Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima (Cemtec), que aponta chuvas irregulares em Mato Grosso do Sul durante os quatro primeiros meses de 2026. Entre os municípios analisados, nove registraram precipitação acima da média climatológica e dez ficaram abaixo do volume histórico.
Apesar da distribuição desigual, houve melhora nas condições de seca. Em abril, por exemplo, a maior parte do Estado não apresentou estiagem. As exceções foram as regiões noroeste, leste e nordeste, onde a seca variou de fraca a moderada. Em comparação com abril de 2025, o Estado recebeu mais chuva e houve redução da seca.
Na porção norte do Rio Paraguai, próxima à divisa entre Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Bolívia, as águas começaram a baixar lentamente. Já na região mais ao sul, o nível continua subindo. Chuvas fora de época na Bacia do Rio Miranda também contribuíram para abastecer parte da planície ao sul.
Segundo Alcides Faria, diretor da ONG Ecoa:
"Mais água, menos território para o fogo. Comparativamente, temos menos água que em 2025, mas muito mais que no trágico 2024."
Risco de fogo
Mesmo com um cenário mais favorável no início do ano, o perigo permanece para o restante da temporada. A previsão para julho e agosto indica temperaturas acima da média histórica e distribuição irregular das chuvas, conforme nota técnica do Cemtec.
O comportamento das chuvas será decisivo para o Pantanal durante o segundo semestre. Levantamento do Cemtec mostra uma relação inversa entre o volume de precipitação e a ocorrência de incêndios no bioma entre 2001 e 2025.
Anos com chuvas abaixo da média histórica, estimada em aproximadamente 1,1 mil milímetros, tendem a registrar aumento expressivo dos focos de calor. A escassez de água reduz a umidade do solo e da vegetação, formando material combustível mais suscetível à ignição e à rápida propagação das chamas.
Grande parte de Mato Grosso do Sul encontra-se nos níveis de Atenção (risco moderado, que recomenda o início de ações preventivas) e Alerta (risco alto, que exige prevenção coordenada, mobilização de equipes e campanhas de conscientização) na previsão sazonal de perigo de incêndios.
El Niño: chuva ou seca?
Os modelos climáticos analisados pelo Cemtec indicam alta probabilidade de desenvolvimento do El Niño entre junho e agosto. De julho a setembro, aumenta a possibilidade de o fenômeno ocorrer com intensidade fraca a moderada. Entre setembro e dezembro, cresce a chance de um El Niño forte ou muito forte.
Segundo Alcides Faria, há previsão de chuvas acima da média para a região Centro-Oeste com a chegada do fenômeno, mas ainda não é possível afirmar se essas precipitações alcançarão de forma consistente a Bacia do Rio Paraguai.
"Com o El Niño, a previsão de meteorologistas é que tenhamos chuvas acima da média para o Centro-Oeste para essa época do ano. Elas alcançarão a Bacia do Rio Paraguai e o Pantanal? Espero que sim."
O diretor da Ecoa destaca que episódios intensos do El Niño, registrados entre 2019 e 2020 e entre 2023 e 2024, coincidiram com períodos de seca e incêndios no Pantanal. Para os próximos meses, a previsão indica alta probabilidade de temperaturas acima da média.
"Se não vierem chuvas consistentes, podemos ter uma condição propícia ao fogo. Na parte final do ano, a previsão é a do Super El Niño. Podemos ter condições de fogo fora de época, como em 2023."
Intensificação da prevenção
Diante da possibilidade de agravamento durante a estação seca, o Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul informa que mantém o monitoramento permanente da região pantaneira e o planejamento operacional para ampliar a capacidade de resposta caso as ocorrências aumentem.
Segundo a corporação:
"Para os próximos meses, a expectativa é de aumento do risco de incêndios florestais, em razão da intensificação dos efeitos do fenômeno El Niño. Diante desse cenário, o Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul mantém o monitoramento constante e o planejamento operacional para responder de forma rápida e eficiente às ocorrências."




