Saúde
Sua postura na cadeira pode influenciar o humor e até a disposição para correr riscos
Pesquisa indica que até a altura da tela do computador pode alterar discretamente o humor e a disposição para assumir riscos
BATANEWS/VEJA
Sentar-se mais ereto ou mais curvado pode fazer mais do que aliviar uma dor nas costas. Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade McGill, no Canadá, sugere que a postura corporal também pode influenciar o humor e, principalmente, a disposição para assumir riscos, mesmo quando a pessoa nem percebe que sua posição está sendo manipulada.
Os resultados ajudam a responder uma das principais críticas à chamada teoria do “feedback postural”, segundo a qual o corpo não apenas expressa emoções, mas também ajuda a moldá-las.
Segundo o estudo, a maior parte das pesquisas pedia explicitamente que os participantes adotassem uma “postura de poder”, com peito aberto e coluna ereta, ou uma postura retraída. E isso levantava dúvidas sobre a influência da expectativa dos voluntários.
No novo experimento, em vez de dar instruções, os pesquisadores modificaram o ambiente. O estudo foi publicado na revista científica British Journal of Psychology.
Como o estudo foi feito
A pesquisa incluiu 198 adultos, em sua maioria mulheres jovens, com idade média de 20 anos. Os pesquisadores ajustaram a altura de uma mesa e do tablet usado durante o experimento.
Para um grupo, o aparelho foi posicionado acima da linha dos olhos, incentivando naturalmente uma postura mais ereta.
Já para o outro, ficou próximo aos joelhos, obrigando os participantes a se inclinarem para frente para enxergar a tela. Nenhum deles recebeu orientações sobre como deveria se sentar.
Antes e depois da tarefa, os voluntários responderam questionários sobre humor, sensação de orgulho e estado emocional.
Em seguida, realizaram um teste bastante utilizado em pesquisas sobre tomada de decisão, chamado BART (Balloon Analogue Risk Task), também conhecido como “teste do balão”.
No experimento, cada participante recebe um balão virtual. A cada clique, o balão enche um pouco mais e rende dinheiro fictício. Quanto maior o balão, maior a recompensa acumulada, mas também aumenta a chance de ele estourar.
Se isso acontece, todo o dinheiro daquela rodada é perdido. O participante precisa decidir quando parar antes da explosão. Esse teste é considerado uma forma validada de medir o comportamento de tomada de risco.
O que eles descobriram
Os pesquisadores observaram que os participantes que estavam com a postura ereta passaram a assumir mais riscos ao longo da tarefa do que aqueles que permaneceram curvados.
Eles inflaram mais os balões antes de decidir parar, comportamento que refletiu maior propensão ao risco.
Apesar disso, eles não estouraram mais balões do que o outro grupo, indicando que não estavam simplesmente agindo por impulso.
Além disso, quando os pesquisadores compararam os resultados com um terceiro grupo que realizou o teste em uma posição considerada neutra, eles perceberam que o efeito parecia ser impulsionado principalmente pela postura mais ereta, e não por um prejuízo causado pela postura curvada.
Já as alterações emocionais foram mais discretas. A postura mais ereta esteve associada a um aumento dos sentimentos de orgulho, mas esse efeito apareceu principalmente quando os pesquisadores analisaram uma medida objetiva da postura: o ângulo do pescoço registrado em vídeo durante toda a tarefa.
Segundo o estudo, as mudanças em emoções positivas de forma geral foram menores e nem todas atingiram significância estatística.
Um dos principais achados do estudo foi que a maioria dos participantes não percebeu que sua postura estava sendo influenciada pela posição do tablet.
Mesmo quando os pesquisadores repetiram as análises considerando apenas os voluntários que afirmaram não desconfiar da manipulação, os resultados permaneceram semelhantes.
A pesquisa afirma que isso reforça a hipótese de que fatores comuns do ambiente, como a altura do monitor, da mesa ou da cadeira, podem influenciar sutilmente o comportamento sem que as pessoas tenham consciência disso.
Mas os autores afirmam que os resultados não significam que simplesmente “sentar reto” fará alguém tomar decisões melhores ou mais ousadas.
O estudo mostra apenas que pequenas alterações ambientais capazes de modificar a postura podem ter influência modesta sobre estados emocionais e comportamentos relacionados ao risco.
Os próprios pesquisadores reconhecem limitações importantes. A amostra era formada predominantemente por mulheres jovens universitárias e o próprio campo das chamadas “posturas de poder” enfrenta debates e dificuldades de reprodução desde a última década.
Ainda assim, os resultados sugerem que a ergonomia do ambiente de trabalho pode ter impactos que vão além do conforto físico. Segundo os autores, fatores cotidianos, como a altura de uma mesa, de um monitor ou de uma bancada, podem influenciar discretamente a forma como as pessoas se sentem e tomam decisões.



