O presente eleitoral que a diretoria da Petrobras deu ao candidato Lula | José Casado

A bordo do navio-sonda, Lula se mostrava eufórico diante das lentes da sua equipe de campanha

BATANEWS/VEJA


Sonda de perfuração da Petrobras na costa do Amapá: “É uma descoberta absolutamente relevante', confirmou a presidente da empresa Magda Chambriard — (Petrobras/Divulgação)

Nesta segunda-feira (18/8), a diretoria da Petrobras entregou a Lula um frasco com amostra de petróleo recém-extraído de um poço aberto na costa do Amapá. Ele foi até o navio-sonda estacionado a 185 quilômetros de distância do município de Oiapoque para gravar cenas de campanha.

“Valeu a pena acreditar na sua vontade” — o candidato repetia, sorrindo, a sua gratidão à presidente da empresa pública Magda Chambriard, acompanhada das diretoras Clarice Coppetti (Assuntos Corporativos), Renata Baruzzi (Engenharia, Tecnologia e Inovação) e Sylvia Anjos (Exploração e Produção).

Até duas semanas atrás, nem o mais otimista publicitário do Palácio do Planalto acreditava que a Petrobras produziria boas notícias sobre petróleo na costa do Amapá antes do segundo turno eleitoral. Por isso, o fim de semana se tornou memorável.

Na quinta, confirmou-se a notícia na empresa e no Planalto. Na sexta, divulgou-se a versão do achado de “hidrocarbonetos” — sinais, fortes sinais de óleo ou gás. Lula se conteve. Nada disse no comício de domingo, no antigo estádio Vila Euclides (renomeado 1º de Maio), em São Bernardo do Campo (SP). Chambriard, porém, se permitiu pronunciar a palavra “petróleo” em público: “Já está ‘amostrado’, já está nas nossas mãos, nós já vimos esse petróleo”, confirmou ao repórter Teo Cury, da CNN. Acrescentou: “É uma descoberta absolutamente relevante”.

O óleo foi extraído numa prospecção feita além daquilo que os especialistas chamam de “assoalho marinho”, a 2. 880 metros de profundidade naquela parte do Atlântico, distante 580 quilômetros da foz do rio Amazonas.

A bordo do navio-sonda, Lula se mostrava eufórico diante das lentes da sua equipe de campanha. Repetiu a exibição das mãos sujas de petróleo, como havia feito na época da descoberta do pré-sal, um trunfo na reeleição em 2006 e na eleição da sucessora Dilma Rousseff em 2010 — a cena original das mãos sujas de óleo é um clássico do departamento de propaganda do governo Getulio Vargas sobre a Petrobras, fundada em 3 de outubro de 1953.

Entusiasmado com o presente eleitoral recebido da diretoria da Petrobras, o candidato fez um discurso de meia hora, quase totalmente dedicado ao passado, remetendo-se à época das descobertas no pré-sal do Sudeste.

É paradoxal, mas, diante de um achado com potencial transformador para o país, Lula não conseguiu ir além da repetição de ideias e clichês datados de duas décadas atrás: “É o nosso passaporte para o futuro”, disse, outra vez.

O pré-sal está chegando à fase de declínio, por exaustão dos depósitos acessíveis. Produziu um oceano de dinheiro que foi gasto como se não houvesse futuro. Há risco de reprise.