Policial
Relatos de violência, acolhimento e orientação marcam rotina das atendentes do Ligue 180
Profissionais da central relatam casos de cárcere privado, violência familiar e medo das vítimas. Serviço registra mais de 1 milhão de atendimentos nos primeiros sete meses de 2026.
BATANEWS/G1
A Central de Atendimento às Mulheres (Ligue 180), em Brasília, recebe diariamente ligações de mulheres em situação de violência que buscam orientação, acolhimento ou apoio para denunciar agressões. Do outro lado da linha, o trabalho das atendentes contraria o ditado popular "em briga de marido e mulher não se mete a colher" para acolher e orientar mulheres vítimas de violência. (Veja abaixo como pedir ajuda).
O g1 foi até a central para mostrar a rotina de atendentes que estão do outro lado da linha e ajudam mulheres que procuram o serviço em busca de informação, orientação ou para denunciar uma situação de violência.
“Alguns relatos tocam a gente. Não tem como não tocar. Aqui a gente lida com todo tipo de denúncia. Às vezes ela [a vítima] busca uma informação, ou só quer desabafar, ou quer contar o que está acontecendo', contou uma atendente que não quis ter a identidade revelada.
O Ligue 180, gerenciado pelo Ministério das Mulheres, é um serviço de utilidade pública que acolhe mulheres e orienta sobre direitos, serviços e políticas públicas. Nos sete primeiros meses deste ano, a central registrou mais de um milhão de atendimentos nos primeiros sete meses deste ano.
Outra colaboradora resumiu o sentimento de ajudar as mulheres como “satisfação e dever cumprido'.
“A partir do momento que ela faz a primeira ligação aqui, a gente já sente que ela tá criando coragem de denunciar. A sensação é satisfação e dever cumprido', relata.
A central reúne cerca de 370 profissionais, entre atendentes, psicólogas, gestoras e capacitadoras. As equipes recebem acompanhamento psicológico semanal, individual ou coletivo, para lidar com o impacto emocional dos relatos de violência ouvidos diariamente.
Relatos de violência
Apesar da sensação de gratificação por ajudar vítimas, a rotina na central também é marcada por situações difíceis.
Uma das atendentes lembrou o caso de uma mulher mantida em cárcere privado pelo companheiro e sem apoio da própria família.
“Teve uma situação de uma moça que não tinha apoio nenhum da família. Os pais achavam que ela apanhava porque ela merecia. O marido mantinha em cárcere privado. Ela me ligou escondida. Era usuário de drogas e alcoólatra. Ela conseguiu registrar, graças a Deus, a denúncia aqui, porque ela não tinha nem como ir para a cidade', disse uma das atendentes.
Em outro atendimento, quem procurou ajuda foi uma criança.
"Outra situação foi de uma criança de 10 anos. Ele telefonou para contar o que estava acontecendo com a mãe dele. Estava muito nervoso e com muito medo de que algo pior acontecesse", afirmou.
Uma atendente também contou sobre o caso de uma idosa que sofria violência praticada pelo próprio filho.
“Ela ligou chorando muito, e o agressor dela era o filho. Por um lado, ela não queria registrar a denúncia. Era só ela e o filho. Ela ficou bem dividida. Eu conversei bastante com ela, orientei que poderia buscar apoio psicológico e ela acabou não registrando a denúncia. Mas ficou muito feliz porque pôde, além de receber orientação, desabafar. Ela não tinha ninguém para desabafar'.
“Tem uma história de uma mulher que me ligou, estava nervosa e, no final do atendimento, ela pediu várias vezes para eu acreditar nela e confiar que ela não ia voltar com o agressor. Como se ela precisasse provar', relatou.
Apoio e capacitação psicológica para as atendentes
As profissionais que trabalham na Central de Atendimento às Mulheres recebem acompanhamento psicológico regular para lidar com os impactos da atividade.
Fabiana Emir da Silva, coordenadora de Psicologia e Treinamento da central, explica que a preparação das atendentes busca equilibrar acolhimento e distanciamento profissional.
"O principal aspecto é que a colaboradora precisa unir a fala com a escuta, na empatia, mas também fazer uma separação, para não transferir esses sentimentos para ela mesma e conseguir fazer um atendimento imparcial, de uma forma que essa demandante consiga se sentir livre o suficiente para contar o que aconteceu", disse a coordenadora.
Segundo a coordenadora, as profissionais também são treinadas para evitar a revitimização das mulheres durante os atendimentos.
“Às vezes, a escuta vai se somando e se reestruturando nessa criação para que ela continue a contar aquilo que aconteceu a ela de uma maneira que não seja revitimizada'.
O acompanhamento psicológico acontece uma vez por semana, por cerca de uma hora e meia, e também pode ser acionado individualmente em situações de crise.
“Nós também atuamos com apoio individual, porque pode acontecer de a colaboradora ter uma desestabilização durante esse atendimento. Toda a parte da psicologia está aqui para atuar não só no pós-atendimento, mas também durante o atendimento e nessa prevenção', afirmou.
Aumento no número de atendimentos
Nos sete primeiros meses de 2026, o Ligue 180 registrou mais de um milhão de atendimentos. Número que corresponde a 95% de todo o volume registrado no ano passado.
Segundo dados do Ministério das Mulheres, entre 1º de janeiro e 31 de julho de 2026, foram realizados 1.035.647 atendimentos, uma média de 4.884 por dia.
Para Estela Bezerra, secretária Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres do Ministério das Mulheres, o aumento está relacionado principalmente à maior confiança no serviço e ao conhecimento sobre o Ligue 180.
“Nem sempre quem chama é a mulher vítima. Às vezes, é uma irmã, uma vizinha, uma amiga, uma filha ou um filho. Esse aumento significa que as mulheres estão tendo confiança e conhecimento do Ligue 180. Mas também pode significar que esse debate está motivando as mulheres a procurar o serviço, já que o tema está sendo pautado por instituições públicas e privadas.'
Segundo ela, o crescimento também pode estar relacionado à maior exposição dos casos de violência contra as mulheres, principalmente por meio de imagens registradas por câmeras de segurança.
Ligue 180
O Ligue 180 funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana. As atendentes podem receber chamadas em português, espanhol e inglês.
“O Ligue 180 atua para além do registro de denúncias. O serviço também repassa informações, orientações e indica os serviços da rede de proteção disponíveis', afirma Juliana Costa, diretora da Central de Atendimento do Ligue 180.
A denúncia, identificada ou anônima, pode chegar à central por diferentes canais:
Telefone: 180WhatsApp: +55 (61) 99610-0180E-mail: [email protected]
Após o registro da denúncia, o caso recebe um número de protocolo e é encaminhado aos órgãos competentes para a apuração criminal na Segurança Pública e no Ministério Público.
O órgão estadual responsável pelas políticas para as mulheres também é notificado.
É possível acompanhar o andamento da denúncia entrando em contato com o Ligue 180. Para isso, é necessário fornecer o CPF da pessoa denunciante ou o número do protocolo de atendimento.
“Mesmo com medo, as mulheres devem procurar ajuda, porque tem uma saída para a situação de violência e é muito importante que o primeiro passo seja dado para que ela saia desse ciclo', finaliza uma atendente.






