O que as canetas emagrecedoras fazem com a compulsão alimentar

Revisão de estudos sugere que medicamentos como semaglutida e tirzepatida reduzem episódios de compulsão

BATANEWS/VEJA


Ataques de gula: sintoma da compulsão alimentar (iStock/Reprodução)

A paciente chega ao consultório para tratar o peso. Ou o açúcar no sangue. Fala da balança, dos exames, da pressão. Quase nunca menciona o que acontece à noite, sozinha, diante da geladeira aberta — porque nem sempre sabe que aquilo tem nome.

O transtorno da compulsão alimentar é o mais comum de todos os distúrbios alimentares. Atinge cerca de 1% a 2% da população mundial, mas esse número é muito maior entre quem procura ajuda para a obesidade e o diabetes tipo 2. Ou seja: ele costuma vir disfarçado de outra queixa.

Esse é o ponto delicado. Muitas pessoas não sabem que carregam um transtorno mental — a compulsão alimentar — e batem à porta do médico pedindo tratamento só para emagrecer ou para controlar a glicemia. Cabe ao profissional de saúde fazer o rastreamento ativo dessa condição, com perguntas simples e questionários validados que revelam o que o paciente, envergonhado, muitas vezes cala. Reconhecer é o primeiro passo para tratar.

Os sintomas da compulsão

O transtorno vai além de “comer demais de vez em quando”. O padrão de comportamentos inclui:

• Episódios recorrentes de comer uma quantidade claramente exagerada num curto intervalo de tempo;

• Sensação de perda de controle durante o episódio — a impressão de que, uma vez começado, não dá para parar;

• Comer muito mais rápido que o normal e até sentir-se desconfortavelmente cheio;

• Comer grandes quantidades sem fome física, muitas vezes escondido, por vergonha;

• Culpa, nojo ou tristeza logo depois;

• Sofrimento marcante, com episódios que se repetem (em média, ao menos uma vez por semana) — e sem os comportamentos de “compensação” (como vômitos ou jejuns) que definem a bulimia.

E as canetas com isso?

Aqui entra a novidade da medicina. Os estudos com liraglutida, semaglutida e tirzepatida, que revolucionaram o tratamento da obesidade e do diabetes, quase nunca foram desenhados especificamente para a compulsão alimentar. Mesmo assim, resultados bons sobre a condição apareceram.

É provável que esse benefício tenha surgido justamente porque esses ensaios, inevitavelmente, incluíram muitas pessoas que também tinham compulsão. Daí a importância de reunir tudo e olhar com método — exatamente o que fez uma nova metanálise, uma grande revisão da literatura médica a respeito. 

Publicado na revista eClinicalMedicine, do grupo The Lancet, o trabalho reuniu pesquisadores britânicos, suecos e americanos, com financiamento público e filantrópico. Trata-se de uma revisão sistemática com metanálise: em vez de olhar um estudo isolado, os autores varreram a literatura, selecionaram os melhores ensaios clínicos randomizados — o padrão-ouro, em que os participantes são sorteados para o remédio ou um comparador — e combinaram os resultados. Ao todo, 25 ensaios e mais de 8 mil pessoas com sobrepeso ou obesidade entraram na análise.

Impacto no transtorno alimentar

Os benefícios apareceram em várias frentes. Houve redução da frequência e da gravidade da compulsão, queda expressiva na perda de controle, menos comer desinibido (se alimentar após alguns gatilhos sociais e emocionais) e menos comer emocional, aquele hábito de buscar no alimento alívio para a ansiedade.

Somando todos os desfechos, o efeito global chegou e ser considerado uma melhora moderada e consistente — e foi ainda maior nos poucos estudos com pacientes já diagnosticados com compulsão.

É preciso, porém, botar as coisas no devido contexto. Apesar dos números promissores, nenhuma terapia baseada em GLP-1 está aprovada especificamente para tratar a compulsão alimentar. Até hoje, os tratamentos com respaldo consolidado são apenas dois: a terapia cognitivo-comportamental e um remédio autorizado justamente para essa condição.

E há motivos para cautela. Só três dos 25 ensaios recrutaram pacientes com diagnóstico formal de compulsão — nos demais, o comportamento foi um efeito secundário. Faltam dados de longo prazo.

As evidências, embora promissoras, ainda são preliminares. O que existe é um sinal — instigante, digno de mais estudos — de que as canetas realmente afetem circuitos cerebrais do desejo e da recompensa, aqueles envolvidos nas compulsões.