EJA Mulher: voltar a estudar também significa voltar a sonhar

Programa do Governo Riedel reúne quase 300 mulheres em três escolas estaduais e transforma a volta à sala de aula em caminho para recuperar autonomia, confiança e projetos de vida.

BATANEWS/ASSESSORIA DE IMPRENSA


Fotos: Saul Schramm

Aos 44 anos, Nicácia Tereira de Paula já havia atravessado experiências suficientes para acreditar que alguns sonhos tinham ficado definitivamente para trás. Diarista, mãe de quatro filhos e avó de sete netos, enfrentou um câncer, perdeu o pai, viveu problemas familiares, depressão e isolamento. Foi nesse período, quando a vida parecia ter perdido as cores, que surgiu uma possibilidade inesperada: voltar para a escola.

“Eu estava muito depressiva, vivia sob medicação e me isolei. Quando surgiu o EJA Mulher, não pensei duas vezes. Com o apoio dos meus filhos e netos, me matriculei e, lá, me reencontrei.”

O reencontro aconteceu na Escola Estadual Vereador Cristóvão Silveira, no Jardim Noroeste, em Campo Grande. Entre as alunas, o lugar ganhou um nome afetivo: Escola do Amor. Foi ali que Nicácia percebeu que concluir os estudos não significava apenas recuperar o tempo perdido, mas voltar a imaginar o que ainda poderia fazer com a própria vida.

“Vi que poderia dar continuidade a tudo aquilo que deixei para trás. Hoje, meu maior desejo é viver, concluir meus estudos e me formar. Se Deus quiser, vou chegar lá.”

A história dela ajuda a explicar o sentido do EJA Mulher, iniciativa do governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, destinada a mulheres jovens, adultas e idosas e integrada às políticas de autonomia e direitos das mulheres em Mato Grosso do Sul.

Atualmente, o programa atende quase 300 alunas em três escolas da Rede Estadual de Ensino. Elas fazem parte de um universo de 5,7 mil estudantes matriculados na Educação de Jovens e Adultos no Estado.

Mais do que abrir vagas, porém, a experiência dessas mulheres mostra que permanecer na escola exige enfrentar obstáculos que muitas vezes estão fora dos muros da própria instituição.

Nicácia, por exemplo, precisava levar os netos para as aulas para não deixá-los sozinhos — e também para não abandonar novamente os estudos. A escola dispõe de um espaço para receber as crianças, permitindo que mães e avós estudem sem precisar escolher entre a sala de aula e o cuidado com a família.

“Eu levava meus netos comigo para não deixá-los sozinhos e também não faltar às aulas. Temos profissionais dedicados e amorosos que cuidam das crianças.”

A mudança provocada pela volta à escola ultrapassou a vida pessoal. Hoje, Nicácia procura incentivar outras mulheres, especialmente aquelas que enfrentam relacionamentos abusivos ou situações de violência, a enxergarem a educação como uma possibilidade de reconstrução.

“Eu falo: ‘Gente, estudem, voltem para a escola’. Ali encontramos acolhimento, profissionais excelentes e pessoas em quem podemos nos espelhar.”

Quando tenta resumir o que encontrou ali, ela volta ao nome que as próprias alunas deram à escola: “A Escola do Amor surgiu na minha vida no momento em que eu mais precisei.”

Um exemplo que atravessa gerações

Na mesma escola, Geovana Ojeda de Moraes, de 32 anos, descobriu que um recomeço pode alcançar não apenas quem volta a estudar, mas toda uma família.

Mãe de três filhos e trabalhadora da construção civil, ela retornou à sala de aula depois de um período difícil. Um acidente grave envolvendo o filho do meio despertou uma vontade que até então parecia distante: estudar e construir um caminho profissional na área da saúde.

Técnica de enfermagem, fisioterapia, neurologia. Possibilidades começaram a ganhar nome.

“Eu vi aquilo não só como um recomeço, mas como uma forma de ampliar minhas metas e meus objetivos.”

Conciliar essas metas com a realidade exigia persistência. Geovana dividia os dias entre o trabalho na construção civil, os filhos e os estudos. Em alguns momentos, duvidou da própria capacidade de continuar.

“Eu achei que não daria conta”, continuou.

E houve momentos em que a dificuldade foi muito além do cansaço. “Teve dias muito difíceis, em que faltava alimento em casa. E, mesmo assim, eu vinha para a escola. Muitas vezes, era aqui que meus filhos jantavam.”

É nessa dimensão que o EJA Mulher deixa de aparecer apenas como uma política de recuperação da escolaridade e ganha contornos de uma rede de permanência e acolhimento. “Para algumas dessas mulheres, continuar estudando depende também da existência de condições que lhes permitam atravessar uma rotina marcada pelo trabalho, pelos cuidados com a família e pelas dificuldades econômicas”, explica o governador.

Nove meses depois de voltar à escola, Geovana já percebia uma transformação que nenhum indicador consegue medir sozinho.

“Minha mente é mais forte, mais confiante. Eu sei quem eu sou e onde quero chegar.”

A mudança chegou também aos filhos. Um dia, a filha de 12 anos contou que havia tirado nota 8,5 e disse que queria seguir o exemplo da mãe. Agora, as duas passaram a compartilhar outro sonho: chegar à faculdade.

“Ela falou que queria ser como eu, tirar as melhores notas. Hoje, sonha em fazer faculdade comigo. E isso não tem preço.”

É esse efeito que dá dimensão humana aos números. O EJA soma 5,7 mil estudantes na Rede Estadual de Ensino de Mato Grosso do Sul; dentro desse universo, quase 300 mulheres são atendidas pelo EJA Mulher em três escolas. As matrículas revelam o alcance da política. Histórias como as de Nicácia e Geovana mostram o que pode existir por trás delas.

Uma mãe que retorna à escola mostra aos filhos que os estudos interrompidos podem ser retomados. Uma avó que volta à sala de aula ensina aos netos que os projetos pessoais não precisam ter prazo de validade. E uma mulher que recupera a confiança em si mesma pode voltar a enxergar possibilidades onde antes havia apenas limites.

Sob a gestão do governador Eduardo Riedel, o EJA Mulher integra a política estadual de educação voltada também à promoção da autonomia e dos direitos das mulheres. Ao reunir educação e condições de permanência na escola, a iniciativa procura alcançar justamente mulheres para quem voltar a estudar exige enfrentar barreiras que vão muito além da aprendizagem.

“Quando uma mulher volta para a escola, ela não está apenas retomando os estudos. Muitas vezes, está retomando projetos que foram interrompidos pela necessidade de trabalhar, cuidar dos filhos e da família ou enfrentar situações muito difíceis ao longo da vida. O EJA Mulher precisa oferecer não apenas a oportunidade da matrícula, mas condições para que essas mulheres permaneçam estudando, conquistem autonomia e possam construir novas perspectivas para si e para suas famílias”, diz o governador.

A fala sintetiza uma dimensão que aparece concretamente nas trajetórias das alunas: educação, nesse contexto, não termina na obtenção de um certificado. Ela pode significar independência, confiança e capacidade de projetar uma vida diferente.

Geovana resume essa transformação à sua maneira: “O amor é isso: transformar uma vida sem sentido em sonhos, motivações e exemplo para o futuro.”

No Jardim Noroeste, o futuro de que ela fala não chega como uma grande promessa. Começa em gestos muito menores: uma mulher que vence o cansaço e entra na sala de aula, uma avó que leva os netos consigo para não faltar, uma filha que vê a mãe estudando e passa a sonhar com a faculdade.

Para Nicácia, não era tarde demais. Para Geovana, também não.

E, entre livros, crianças, professores e mulheres que carregam histórias inteiras nos ombros, cada aula se transforma em uma pequena afirmação de que algumas páginas da vida ainda podem ser reescritas.