11 de setembro: câncer nos lembra dos efeitos da tragédia para a saúde

Vinte e cinco anos após ataques, assistência a sobreviventes relacionada a tumores passou de cerca de 8,9 mil em 2021 para 27,3 mil em 2026

VEJA / STEPHEN STEFANI*


Quando as Torres Gêmeas desabaram, uma enorme quantidade de poeira, fumaça e resíduos se espalhou e material continha mistura complexa de partículas e substâncias potencialmente carcinogênicas (Spencer Platt/Getty Images)

Em 11 de setembro de 2001, o mundo assistiu, em tempo real, a uma das maiores tragédias do século. Os atentados contra os Estados Unidos, que mataram quase 3 mil pessoas, alteraram profundamente a política internacional, a segurança, as guerras e a vida cotidiana no século XXI. Vinte e cinco anos depois, o impacto daquele dia continua sendo percebido não apenas na memória de quem viveu os atentados, mas também na saúde de milhares de pessoas expostas às suas consequências. Entre elas, está o câncer.

Quando as Torres Gêmeas desabaram, uma enorme quantidade de poeira, fumaça e resíduos foi lançada sobre Lower Manhattan. O material continha uma mistura complexa de partículas e substâncias potencialmente carcinogênicas, entre elas amianto, benzeno e outros compostos liberados pela destruição e pela combustão dos destroços. Os incêndios continuaram por meses, enquanto a poeira permanecia em casas, escritórios e outros ambientes.

Naquele momento, naturalmente, a preocupação era sobreviver. As consequências que poderiam aparecer anos ou décadas depois ainda eram desconhecidas. Hoje, porém, temos uma perspectiva que só o tempo foi capaz de revelar.

O acompanhamento de pessoas expostas ao desastre mostra um número crescente de diagnósticos de câncer. Dados do World Trade Center Health Program indicam que, entre os sobreviventes acompanhados pelo programa, o número de pessoas recebendo assistência relacionada ao câncer passou de cerca de 8,9 mil em 2021 para 27,3 mil em 2026.

Entre aproximadamente 54 mil sobreviventes atualmente inscritos, cerca de metade recebe algum tipo de assistência relacionada à doença. Já se pode dizer que há mais vítimas atentado depois do 11 de setembro do que no próprio dia.

Esses dados, entretanto, precisam ser interpretados com cautela. Uma população acompanhada por um programa específico não representa necessariamente toda a população que esteve exposta ao desastre, e o aumento registrado não permite atribuir individualmente cada diagnóstico à exposição ocorrida em 2001. Mas a tendência é suficientemente relevante para não ser ignorada.

Um dos aspectos que mais chama a atenção é justamente o intervalo de tempo. Existe uma ideia, ainda muito presente no imaginário coletivo, de que uma exposição precisa produzir uma doença imediatamente para ser considerada relevante.

A biologia mostra que esse não foi apenas um trauma coletivo imediato, mas uma tragédia silenciosa, que se prolonga no corpo de quem sobreviveu ou foi ajudar. O câncer é uma doença multifatorial e, em muitos casos, resultado de processos que se desenvolvem silenciosamente ao longo de anos.

Algumas exposições alteram células e tecidos, aumentando o risco de transformações que só se manifestarão muito tempo depois. Para determinados tumores associados às exposições do World Trade Center, os próprios critérios de acompanhamento consideram períodos mínimos de latência que chegam a vários anos.

Outro ponto que merece atenção é a diversidade dos tumores observados. Quando pensamos em uma exposição intensa à fumaça e à poeira, seria intuitivo imaginar que o principal impacto estaria concentrado no sistema respiratório.

No mundo real, entretanto, o acompanhamento dos sobreviventes revelou diferentes tipos de câncer. Entre os diagnósticos mais frequentes estão os cânceres de mama e próstata, além de pulmão, tireoide, colorretal, melanoma e algumas neoplasias hematológicas.

Alguns padrões também levantam questões importantes para a pesquisa. O câncer de mama, por exemplo, vem sendo diagnosticado em sobreviventes em idades mais precoces do que a média observada na população geral em determinados estudos.

Também chamou atenção a presença de câncer de pulmão entre mulheres que nunca fumaram. Nenhum desses achados, isoladamente, permite afirmar uma relação causal direta.

E essa distinção é fundamental. Na medicina, associação não significa necessariamente causalidade. Identificar um número maior de determinados diagnósticos em uma população exposta não permite concluir que aquela exposição tenha sido responsável por cada caso.

Por outro lado, o racional biológico de que uma exposição massiva a substâncias tóxicas cobra um preço por décadas fica muito nítido.

Reconhecer padrões epidemiológicos é justamente uma das formas pelas quais a ciência identifica sinais que precisam ser investigados. Esses dados – geradores de hipóteses, demandam acompanhamento de longo prazo dessas populações para que conclusões mais sólidas sejam identificadas.

Há ainda um aprendizado que cabe reforçar que é particularmente importante: rastreamento e diagnóstico precoce fazem diferença. O acompanhamento médico estruturado das pessoas expostas ao desastre não serve apenas para registrar estatísticas, mas também permite identificar alterações de saúde ao longo do tempo e, quando possível, diagnosticar doenças em fases mais iniciais, ampliando as possibilidades de tratamento curativo e controle de doença.

Vinte e cinco anos depois, essa é uma das principais lições que o 11 de setembro deixa para a medicina: compreender os efeitos de uma tragédia sobre a saúde exige tempo, acompanhamento e produção contínua de evidências.

Ainda há perguntas sem resposta sobre o impacto das exposições daquele período, mas os dados acumulados até aqui reforçam a importância de olhar para o histórico de cada paciente e para os riscos que podem se manifestar anos mais tarde. Na oncologia, esse conhecimento é fundamental não apenas para entender o passado, mas para orientar o cuidado no presente e ampliar nossa capacidade de prevenir, identificar e tratar doenças no futuro.

*Stephen Stefani é oncologista da Oncoclínicas, especialista em avaliação de tecnologia em saúde e autor do livro Saúde (em) Crônica