Saúde
‘As farmacêuticas querem que as pessoas usem as canetas para sempre, mas elas não são a cura da obesidade’
Em novo livro, o médico David A. Kessler, famoso por liderar a resposta à covid nos EUA, fala sobre as causas e as soluções para a epidemia de excesso de peso
BATANEWS/VEJA
Em quase cinco décadas dedicadas à medicina, o pediatra americano David A. Kessler já testemunhou de tudo.
Formado em 1979 pela Universidade Harvard, sempre teve interesse em trabalhar além dos consultórios, contribuindo para a construção de políticas públicas de saúde.
Nos anos 1990, foi comissário da Food and Drug Administration (FDA), agência regulatória dos Estados Unidos, período no qual se destacou pela regulamentação da indústria do cigarro e pelo combate ao tabagismo. Mais tarde, durante a pandemia de covid-19, foi nomeado pelo então presidente Joe Biden como diretor científico do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, tornando-se responsável por acelerar o desenvolvimento de vacinas e outras medidas contra o coronavírus.
Ao longo de sua trajetória, Kessler nunca perdeu de vista uma epidemia silenciosa: a da obesidade.
Em décadas observando como as mudanças nos hábitos alimentares e as revoluções na ciência têm transformado a condição, o professor da Universidade da Califórnia (UFSC) tem um diagnóstico: ainda é preciso repensar nosso estilo de vida, pois os medicamentos disponíveis agora, como Ozempic e Wegovy, não representam a cura definitiva para o problema – hoje uma das principais causas de adoecimento e morte no mundo.
Em meio ao boom das canetas emagrecedoras, o médico acaba de lançar no Brasil o livro Dieta, Remédios & Dopamina: A nova ciência do peso saudável, publicado pela editora Objetiva.
Com a palavra, David A. Kessler.
Os medicamentos análogos de GLP-1 são considerados um divisor de águas no tratamento da obesidade. As canetas e os comprimidos realmente podem resolver o problema do excesso de peso? Eles são altamente eficazes, mas não são uma pílula mágica nem a cura definitiva para a obesidade. O mecanismo de ação dessas drogas consiste em retardar o esvaziamento gástrico, mantendo a comida no estômago por mais tempo. Isso gera uma sensação contínua de saciedade e aproxima a pessoa do limite da náusea, o que reduz drasticamente a vontade de comer.
Sendo a obesidade uma doença crônica, o uso contínuo das canetas, talvez para a vida toda, preocupa o senhor? As farmacêuticas querem que as pessoas usem esses remédios para sempre, mas não acho isso realista. A média de uso fica entre seis e nove meses. O desafio é que, ao interromper o tratamento, o peso retorna, a menos que o paciente tenha usado esse período como uma ponte para aprender novas habilidades de estilo de vida a fim de manter o peso no longo prazo.
Mas por que algumas pessoas não conseguem perder peso ou sustentar o novo peso mesmo com essas medicações? Cada organismo reage de forma diferente. Cerca de 5% a 10% das pessoas não apresentam perda de peso significativa com esses medicamentos, por razões que a ciência ainda não compreende totalmente. Além disso, o sucesso depende de tolerar a dose adequada. Se a pessoa sente efeitos colaterais intensos ou mal-estar constante, ela não conseguirá manter o tratamento. Seja por dieta, cirurgia ou medicamentos, o princípio final é o mesmo: reduzir o apetite para fazer o indivíduo consumir menos calorias.
O que precisa mudar na sociedade para facilitar a adoção de hábitos saudáveis? Precisamos alterar a oferta de alimentos e a própria percepção social do que comemos. Se reduzirmos a gordura visceral no abdômen, poderíamos adicionar de cinco a seis anos de vida com qualidade no tempo que as pessoas têm pela frente, inclusive prevenindo doenças como problemas cardiovasculares e renais.
Esta entrevista será publicada na íntegra na revista VEJA SAÚDE






