Política
Eleições 2026: de Nossa Senhora aos 'soldados' digitais, veja temas que marcaram a campanha
Bolsa Família, bets, crise no STF, disputa por benefícios, mudanças de posição e embates no TSE também marcaram a corrida presidencial.
BATANEWS/G1
A eleição presidencial de 2026 terminou neste domingo (25) após uma campanha marcada por polarização e disputas entre Lula e Flávio Bolsonaro.
A disputa foi judicializada no TSE com mais de 800 ações sobre o uso de inteligência artificial, canais digitais e temas religiosos.
Benefícios econômicos e o fim da escala 6x1 viraram munição eleitoral, levando Flávio Bolsonaro a mudar de posicionamento para apoiar a proposta.
As campanhas criaram os canais digitais "Exército do Lula" e "Tropa do Flávio" para mobilização, gerando disputas judiciais envolvendo a empresa Meta.
Na reta final da campanha, Lula e Flávio protagonizaram um embate sobre a abertura voluntária de seus sigilos bancários, fiscais e telefônicos.
Uma das disputas presidenciais mais acirradas da história chegou ao fim neste domingo (25), depois de uma campanha marcada por intensa mobilização nas ruas, embates nas redes envolvendo “soldados' digitais e uma enxurrada de ações na Justiça Eleitoral.
A polarização obrigou as duas candidaturas a rever estratégias na corrida voto a voto. As discussões foram além dos programas de governo e abriram espaço para promessas de última hora de apelo popular, benefícios econômicos e mudanças de posição dos próprios candidatos.
Da controvérsia que não poupou Nossa Senhora Aparecida às propostas para a abertura dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), a corrida ao Palácio do Planalto acumulou episódios que extrapolaram os palanques e acabaram também nos tribunais.
Veja alguns dos principais temas e episódios que marcaram a campanha presidencial de 2026:
Nossa Senhora Aparecida e a disputa pelo voto religioso;crise no STF e inteligência artificial;reajuste do Bolsa Família e promessas de apelo popular;fim das bets e da escala 6x1;mudanças de posição e de estratégia;mobilização nas ruas e nas redes;plataformas digitais e Justiça Eleitoral;debates e disputa pela abertura de sigilos.
Do primeiro ao segundo turno e religião
No primeiro turno, a crise no Supremo Tribunal Federal (STF), a proibição das bets e o uso de inteligência artificial (IA) estiveram entre os assuntos que dominaram a eleição.
Economia, questões sociais e segurança pública também pautaram a disputa, mas ganharam novos contornos quando o segundo turno colocou Lula e Flávio frente a frente.
Pautas que antes dividiam espaço entre cinco candidaturas viraram munição no confronto direto entre os dois adversários. Houve cobranças públicas, ajustes de rota e novas promessas em busca dos votos decisivos.
Lula intensificou a mobilização corpo a corpo e nas redes, enquanto Flávio buscou reduzir a exposição e evitar erros na reta final.
O embate entre os candidatos também chegou aos debates de forma tardia. Eles se enfrentaram pela primeira vez na Band a uma semana das eleições — quando troca de acusações e tentativas de desconstrução do adversário prevaleceram.
Na sexta-feira (23), Lula e Flávio Bolsonaro fizeram o último confronto direto no debate da TV Globo. Na ocasião, repetiram os ataques, mas também apresentaram e discutiram propostas.
Nas redes, “Exército do Lula' e “Tropa do Flávio' mobilizaram “soldados' para cumprir “missões', enquanto a Meta virou alvo dos dois lados após questionamentos sobre a isonomia no tratamento das candidaturas em suas plataformas.
A Justiça Eleitoral foi demandada e mobilizada em diferentes frentes, das redes e da inteligência artificial à propaganda eleitoral.
A judicialização se tornou uma das marcas da campanha: até a reta final, mais de 800 ações relacionadas à corrida presidencial haviam chegado ao TSE.
Veja temas que marcaram a campanha
1- Nossa Senhora Aparecida e a disputa pelo voto religioso
A controvérsia começou após a circulação, nas redes sociais, de publicações que associavam Flávio Bolsonaro e setores da direita a uma suposta iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
O candidato negou a existência de qualquer proposta nesse sentido. Na ocasião, não havia projeto com esse conteúdo em tramitação no Congresso nem mobilização organizada de evangélicos com esse objetivo.
Em 25 de setembro, o ministro André Mendonça determinou a remoção de publicações relacionadas ao tema. Dois dias depois, o ministro Flávio Dino derrubou a ordem ao analisar um pedido apresentado pelo humorista Antonio Tabet.
Em 28 de setembro, a defesa de Flávio Bolsonaro recorreu, e o ministro Luiz Fux suspendeu a decisão de Flávio Dino e restabeleceu as determinações de André Mendonça até a análise do caso pelo plenário do Supremo.
Em 30 de setembro, o plenário virtual do Tribunal Superior Eleitoral decidiu manter a retirada de posts falsos que ligavam Flávio Bolsonaro a um suposto movimento para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
Os sete ministros concordaram que houve disseminação de informação falsa, mas divergiram sobre o alcance das medidas de remoção dos conteúdos.
Entre as publicações suspensas estava uma postagem de Antonio Tabet, que não citava Flávio Bolsonaro nominalmente. Durante o julgamento, André Mendonça mudou parte de seu voto e decidiu liberar a publicação. Os demais ministros acompanharam esse entendimento.
Flávio Bolsonaro negou ter a intenção de retirar o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida. Em meio à polêmica, o candidato também acusou integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de terem colaborado para disseminar a informação falsa.
A entidade negou participação na elaboração ou divulgação das informações e afirmou que “mentira não se combate com outra mentira'.
A religião continuou presente na campanha depois do primeiro turno. Em 12 de outubro, Dia de Nossa Senhora Aparecida, o presidente, candidato à reeleição, participou de uma missa no Palácio da Alvorada e afirmou que a padroeira vinha sendo “ofendida' por alguns religiosos.
Flávio participou de uma celebração na Catedral de Brasília. O candidato a vice na chapa de Lula, Geraldo Alckmin, foi ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida.
No mesmo dia, o programa eleitoral do candidato do PL abriu com uma homenagem a Nossa Senhora Aparecida. A propaganda de Lula, que teve como foco o custo de vida, também mencionou a padroeira.
No segundo turno, Lula também intensificou a tentativa de aproximação com os evangélicos. Em 14 de outubro, o presidente enviou uma carta às famílias evangélicas.
Nessa carta, o presidente falou de religião e família, citou o combate às bets, a defesa de dois dias de descanso semanal, segurança e saúde e pediu aos fiéis “discernimento' na escolha eleitoral. O texto foi divulgado pela Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito.
A movimentação ocorreu em um segmento no qual Lula enfrentava dificuldades. Pesquisa Quaest divulgada em 28 de setembro mostrou Flávio com 46% das intenções de voto entre os evangélicos e Lula com 27%.
Na reta final, a participação de integrantes da Igreja Católica na discussão eleitoral ganhou um novo capítulo. Um grupo de 64 bispos católicos de 21 estados divulgou uma carta sobre o segundo turno.
O documento não citava Lula nem Flávio nominalmente, mas fazia referências ao governo de um dos candidatos e dizia que pretendia contribuir para a decisão dos eleitores católicos.
A CNBB, procurada pelo g1, reafirmou a defesa da democracia, do respeito aos resultados das urnas e da participação consciente dos eleitores.
2- Crise no STF e inteligência artificial
A crise envolvendo ministros do Supremo se transformou em um dos principais temas da campanha presidencial.
O episódio começou no início de setembro, após virem à tona relatórios da Polícia Federal sobre mensagens enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, ao ministro Alexandre de Moraes.
A PF também apontou que Moraes editou um contrato de R$ 130 milhões entre o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e Vorcaro. Moraes negou ter cometido irregularidades ou favorecido o ex-banqueiro ou o banco.
A crise ganhou uma nova dimensão com o embate entre André Mendonça e Alexandre de Moraes. Em 15 de setembro, os dois discutiram durante uma sessão do Supremo que analisava se havia elementos para abrir uma investigação sobre Moraes.
O julgamento não chegou a uma conclusão sobre esse ponto. Nos dias seguintes, a divisão interna se estendeu a outros temas e passou a envolver outros integrantes da Corte.
Às vésperas do primeiro turno, a disputa também chegou ao Tribunal Superior Eleitoral. Decisões de ministros de campos opostos no Supremo passaram a atingir questões com repercussão na eleição, entre elas a controvérsia sobre publicações que relacionavam Flávio Bolsonaro a uma suposta iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
A crise também entrou na estratégia dos candidatos. Durante o primeiro turno, a campanha de Flávio Bolsonaro passou a explorar o desgaste do Supremo e intensificou as críticas a Alexandre de Moraes. Do lado de Lula, parte dos aliados defendia que o presidente mantivesse distância de Moraes.
Depois do primeiro turno, a disputa interna no Supremo continuou sem solução definitiva. Em 19 de outubro, a Procuradoria-Geral da República (PGR) afirmou não ter identificado abuso de autoridade de André Mendonça na condução de ações do caso Master e se posicionou contra a abertura de investigação do ministro com base nos relatórios de inteligência da PF.
O pedido para investigar Mendonça havia sido apresentado por Moraes, que apontou “fortes indícios' de abuso de autoridade e possível crime de responsabilidade. Segundo a PGR, caberá ao plenário do Supremo autorizar ou rejeitar eventual investigação de um integrante da Corte.
A manifestação da PGR não encerrou a crise. A definição sobre a abertura de uma investigação contra André Mendonça permanecia nas mãos do plenário do Supremo.
O embate havia começado justamente em torno de uma discussão semelhante sobre Alexandre de Moraes: se os elementos encontrados nas investigações do caso Master justificavam ou não uma apuração contra o ministro.
A campanha de 2026 foi marcada, ainda, pelo uso constante de inteligência artificial e pelas discussões sobre os limites da tecnologia na propaganda eleitoral.
Vídeos, imagens e outros conteúdos produzidos com IA levaram campanhas e a Justiça Eleitoral a discutir quais materiais poderiam ser usados para favorecer ou prejudicar candidatos.
O tema ganhou destaque depois que a convenção nacional do Partido Liberal, que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência, exibiu um vídeo produzido com inteligência artificial para reproduzir a imagem e a voz do ex-presidente Jair Bolsonaro. Na gravação, o ex-presidente declarou apoio à candidatura do filho.
O caso chegou ao Tribunal Superior Eleitoral. Em 1º de setembro, os ministros rejeitaram a aplicação de multa a Flávio Bolsonaro pelo vídeo.
A maioria entendeu que não houve violação das regras eleitorais porque o material foi exibido durante a convenção partidária e que a transmissão do evento pela internet, por si só, não transformou a manifestação em propaganda eleitoral antecipada.
No mesmo julgamento, o tribunal manteve a proibição de deepfakes na campanha, mas estabeleceu que, para ser enquadrado dessa forma, o conteúdo produzido ou manipulado por inteligência artificial deve ter grau de realismo ou verossimilhança capaz de criar uma falsa percepção de autenticidade.
A regra vale para conteúdos que criem, reproduzam ou alterem imagem, voz ou manifestação de pessoas vivas, mortas ou fictícias.







