Inadimplência do crédito rural chega a 9,7% entre produtores pessoas físicas

Índice atingiu recorde da série do Banco Central em agosto de 2026, enquanto a taxa entre empresas do setor agropecuário ficou em 3,5%.

BATANEWS/OPR


Foto: Divulgação

A combinação de menor rentabilidade, custos elevados e crédito mais caro alterou as condições financeiras da agropecuária brasileira nos últimos anos. A inadimplência do crédito rural entre pessoas físicas alcançou 9,7% em agosto de 2026, o maior patamar da série histórica do Banco Central, segundo levantamento apresentado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP.

Entre as empresas do setor agropecuário, o indicador ficou em 3,5% no mesmo mês, abaixo da média de 5,2% registrada pelo sistema financeiro. A diferença entre os resultados evidencia que a situação varia conforme o perfil dos tomadores de crédito. As pessoas físicas representam aproximadamente 80% da carteira de crédito rural.

Os dados integram o Texto Ocasional para Discussão (TOD) Contexto do setor agropecuário e seu financiamento e endividamento: 2013 a 2025, divulgado pelo Cepea. O estudo examina as mudanças na produção, na rentabilidade, nas fontes de financiamento e no endividamento do setor.

Entre 2000 e 2025, a produção agropecuária brasileira cresceu quase 150%, com expansão média anual de 3,7%. O resultado superou o crescimento de 2,3% ao ano do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

O avanço esteve associado principalmente aos ganhos de eficiência produtiva. De 2000 a 2024, a produtividade total dos fatores aumentou 92% e respondeu por 82% da expansão do volume produzido. No mesmo intervalo, a relação entre os preços recebidos pelos produtos agropecuários e os custos dos insumos piorou 35%, indicando perda nas condições de troca do setor.

A rentabilidade, porém, passou por mudanças significativas após a pandemia. Entre 2019 e 2021, os preços reais dos produtos agropecuários subiram 72%, enquanto a renda do setor avançou 84%.

O movimento perdeu força nos anos seguintes. Até 2025, os preços recuaram 24%, e a renda agropecuária caiu 14% entre 2021 e 2024. Ao mesmo tempo, os insumos ficaram mais caros: seus preços aumentaram 60% de 2019 a 2022 e permaneceram em níveis elevados.

O crédito também ficou mais oneroso para os produtores. A taxa média dos financiamentos rurais concedidos a pessoas físicas passou de 6,2% ao ano em 2020 para 11,2% em 2023 e chegou a 12,2% em 2025, acompanhando o movimento da taxa básica de juros da economia, a Selic.

Nesse contexto, o endividamento voltou a patamares próximos dos registrados antes da pandemia. A dívida do setor agropecuário com o sistema financeiro, medida em relação à renda, havia caído para 61% em 2020. O indicador subiu para 106% em 2024 e ficou em 94% em 2025, dentro da faixa de 86% a 109% observada entre 2013 e 2019.

O levantamento aponta que decisões de investimento e produção tomadas durante o período de preços elevados perderam rentabilidade com a mudança do cenário econômico. Segundo os autores, a combinação entre dificuldades de liquidez e aumento da inadimplência já podia ser identificada a partir dessas transformações.

O volume de crédito rural concedido aumentou de R$ 251 bilhões em 2019 para R$ 446 bilhões em 2023, considerando valores corrigidos para preços de 2025, uma expansão de 78%.

Além do crescimento dos recursos, houve mudanças na composição do financiamento. As Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) somaram R$ 125 bilhões em 2025, quase sete vezes o volume registrado em 2016. Esse montante correspondeu a 35% do crédito rural.

Entre as fontes privadas, a participação dos recursos contratados a taxas livres passou de 7% em 2013 para 52% em 2025. O movimento indica maior presença de modalidades cujas condições de financiamento não estão vinculadas às taxas controladas tradicionais do crédito rural.

O investimento agropecuário também cresceu, passando de R$ 152 bilhões em 2019 para R$ 260 bilhões em 2025, conforme estimativa do Cepea. Apesar da expansão, o crédito rural respondeu por apenas 36% do total investido no último ano.

Os 64% restantes vieram de outras fontes, como recursos próprios dos produtores, Cédulas de Produto Rural (CPRs), financiamentos de fornecedores e operações de arrendamento mercantil, conhecidas como leasing. Parte do endividamento associado a essas modalidades não aparece nas estatísticas de crédito rural do Banco Central, o que limita a análise do financiamento a partir dos dados tradicionais.

O Cepea também relaciona o atual quadro financeiro às decisões tomadas em um período de condições econômicas diferentes. Com a queda dos preços dos produtos, a manutenção de custos elevados e o aumento dos juros, produtores que assumiram compromissos durante a fase de maior rentabilidade passaram a enfrentar maior pressão sobre o caixa.

O novo estudo complementa o Texto Ocasional para Discussão nº 4, Endividamento rural no Brasil, 2013–2026, que analisa a evolução dos problemas financeiros no setor em 2025 e 2026. Esse levantamento identificou uma carteira problemática de R$ 205 bilhões, equivalente a 23,8% do crédito rural.

O material completo está disponível no estudo publicado pelo Cepea.