Cientista político vê em nova pesquisa uma tendência que pode favorecer Flávio no segundo turno

No programa 'Ponto de Vista', Elias Tavares alerta para migração de votos da direita em eventual confronto final

BATANEWS/VEJA


Foto: Divulgação

A nova pesquisa BTG/Nexus reforça um cenário já recorrente na corrida presidencial: Lula e Flávio Bolsonaro concentram a maior parte das intenções de voto, oscilam dentro de limites estreitos e caminham para uma disputa marcada por forte polarização. Para o cientista político Elias Tavares, porém, há uma diferença importante entre os dois turnos: a fragmentação das candidaturas de direita favorece Lula na primeira rodada, enquanto a tendência de migração desses votos para Flávio pode tornar um eventual segundo turno ainda mais apertado (este texto é um resumo do vídeo acima).

A análise foi feita no programa Ponto de Vista, da VEJA, apresentado por Laísa Dall’Agnol. Segundo a pesquisa, Lula tem 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 35% de Flávio. Ronaldo Caiado aparece com 5%, Renan Santos com 4% e Romeu Zema com 3%. No segundo turno, Lula registra 47%, ante 44% do senador, cenário de empate técnico considerando a margem de erro de dois pontos percentuais.

O que realmente mudou na nova rodada?

Para Elias, olhar apenas a variação de um ponto percentual para cima ou para baixo é insuficiente para compreender o cenário. Embora esses movimentos estejam dentro da margem de erro, a sequência das pesquisas permite observar tendências. “Quando a gente vai analisando a mesma pesquisa, o que a gente consegue analisar são as tendências.”

O cientista político afirma que Lula e Flávio continuam próximos dos limites dos respectivos campos eleitorais. “Existe um teto dos dois lados.”

Segundo ele, a campanha propriamente dita poderá testar até onde esses limites são rígidos, à medida que os candidatos aumentarem a exposição e começarem a apresentar propostas, fazer campanha nas ruas e disputar mais intensamente a atenção dos eleitores.

Lula x Flávio: os eleitores que devem decidir a disputa

Existe espaço fora da polarização?

Um dos dados que mais chamou a atenção de Elias foi a identificação política dos entrevistados. Segundo os números apresentados por ele, 27% se declaram bolsonaristas convictos e 23%, lulistas convictos. Ao mesmo tempo, 23% dizem não se enxergar dentro da polarização e outros 8% rejeitam tanto Lula quanto Bolsonaro.

Para o cientista político, esse contingente merece atenção porque as candidaturas alternativas ainda capturam apenas uma fração desse eleitorado. “A gente tem 23% de não polarizados, mas quando junta Caiado, Renan e Zema, eles todos têm 12%.”

Na avaliação de Elias, a campanha pode provocar uma reorganização desse grupo em torno de algum outro nome, especialmente dentro da direita. Por enquanto, contudo, nenhuma candidatura conseguiu romper de forma consistente a concentração de votos nos dois líderes.

Por que a divisão da direita favorece Lula no primeiro turno?

Elias destacou que os eleitores de Caiado, Renan e Zema tendem majoritariamente a migrar para Flávio Bolsonaro em uma eventual segunda rodada. Isso revela, segundo ele, que existe uma proximidade ideológica entre esses grupos, apesar da divisão atual entre diferentes candidaturas. “Há uma transferência quase que total ali para Flávio, que é o mesmo campo político.”

No primeiro turno, porém, essa pulverização representa uma vantagem para Lula. Enquanto a esquerda chega concentrada em torno de uma única candidatura, a direita distribui seus votos entre vários nomes. “A esquerda hoje está menor, mas está muito organizada eleitoralmente.”

Para Elias, essa fragmentação dificulta o desempenho de Flávio na primeira rodada e beneficia diretamente o presidente.

O segundo turno pode mudar essa lógica?

Na avaliação do cientista político, o cenário tende a se inverter caso a eleição avance para uma segunda etapa. Os votos hoje divididos entre candidaturas de centro-direita e direita podem convergir majoritariamente para Flávio ou para qualquer outro candidato desse campo que chegue à disputa final.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que Lula mantém vantagem mais ampla no primeiro turno, mas aparece em disputa mais apertada contra Flávio no segundo.

Por que o Centrão prefere a neutralidade?

Laísa também questionou Elias sobre a decisão de partidos como União Brasil, Progressistas e Republicanos de não aderirem formalmente a uma das principais candidaturas presidenciais. Para o analista, trata-se da conhecida estratégia de manter “um pé em cada canoa”. “É muito mais confortável”, disse.

Segundo Elias, essas legendas sabem que qualquer presidente eleito precisará negociar com o Congresso e, portanto, não têm necessidade de assumir antecipadamente um compromisso que possa limitar sua capacidade futura de composição. O fortalecimento do próprio Legislativo também diminuiu, segundo ele, o peso tradicional da candidatura a vice como instrumento de aproximação com grandes partidos. “O Congresso tem muito poder e esse poder independe de que lado da polarização estará esse Centrão.”

Na leitura do cientista político, essas legendas estarão próximas do próximo governo independentemente de quem vencer a eleição. A neutralidade, portanto, preserva seu poder de negociação e evita compromissos antes de o eleitor definir o vencedor.