Política
Caso Lulinha: Careca do INSS articulou consórcio para camuflar favorecimento no governo
Empresário havia contratado lobista amiga do primogênito de Lula e pressionava Fábio Luís para viabilizar compra de medicamentos à base de canabidiol
BATANEWS/VEJA
Personagem central no escândalo do INSS, o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, articulou a formação de um consórcio de empresas para camuflar o favorecimento que esperava ter dentro do governo com a atuação da lobista Roberta Luchsinger e de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Lula.
O plano envolvia garantir que o Ministério da Saúde contratasse a empresa World Cannabis, do próprio Careca do INSS, para o fornecimento de medicamentos à base de canabidiol e ajustar o termo de referência do projeto para que apenas quatro empresas, combinadas previamente com ele, participassem formalmente da concorrência para o fornecimento do insumo. A informação consta de depoimento que o empresário Edson Claro, antigo funcionário de Camilo Antunes, prestou à Polícia Federal. A oitiva, a que VEJA teve acesso, até hoje é mantida em sigilo.
De acordo com ele, a viabilidade do negócio com cannabis medicinal, estimado em 627 milhões de reais, dependia da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e de certificações internacionais, o que restringiria a concorrência das cerca de 400 empresas que atuam no ramo para apenas dez.
Dessas, três foram procuradas pelo Careca do INSS em um modelo desenhado por Claro aos investigadores como um jogo de ganha-ganha. A quarta era a própria World Cannabis. Pelo projeto, as quatro venderiam 1,2 milhão de unidades do produto para serem distribuídos a Secretarias Estaduais de Saúde, enquanto Camilo Antunes, por meio de Lulinha e Roberta Luchsinger, destravariam eventuais impasses junto ao governo. As investigações da Polícia Federal mostram que o então chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Ribeiro Santana, o Marcola, chegou a receber o termo de referência e era contato direto da lobista no Palácio do Planalto.
Conforme o depoimento, Edson Claro “entendeu que a formação do consórcio de quatro empresas poderia servir para dissimular eventual favorecimento à World Cannabis; e que, mesmo assim, os lucros estimados eram elevados, considerando que cada dólar investido retornaria onze dólares para as empresas participantes”.
Em abril de 2024, o Careca do INSS viajou com um grupo à Colômbia para comprar parte de uma das empresas que integrariam o consórcio simulado, mas o negócio não foi consolidado. Na época, Camilo Antunes tinha tanta certeza de que o esquema de influência que fomentava por meio de Luchsinger daria certo que, segundo Claro, o Careca do INSS “garantiu que o pagamento seria único e antecipado, demonstrando possuir influência e poder de articulação”.
De acordo com o depoimento, Roberta Luchsinger atuava como intermediária entre o Careca, Lulinha e Gustavo Gaspar, antigo sócio de Camilo Antunes e também investigado nos inquéritos que apuram tráfico de influência no Executivo, e era descrita como “secretária” de Fábio Luís.
O Careca do INSS, por sua vez, se vangloriava da informação de que a lobista teria sido “assessora do presidente Lula”. Nesta quinta-feira, 27, durante sabatina no Jornal Nacional, o petista chamou Roberta Luchsinger de “pilantra” e disse não a conhecer. “Nunca vi na minha vida. Nunca conversei com essa moça. Ela nunca esteve próxima de mim. Malandro é igual em qualquer lugar do mundo”, afirmou ele, que aparece em pelo menos dez fotografias ao lado da lobista postadas por ela própria em redes sociais.
Para destravar o projeto de interesse da World Cannabis, o Careca do INSS se reuniu em um restaurante de Brasília com Roberta e Swedenberger Barbosa, o Berge, então número dois do Ministério da Saúde. Na época, o grupo projetava que Berge assumiria o estratégico posto de diretor-presidente da Anvisa, o que daria a ele poder de caneta para a regulamentação de medicamentos, inclusive os derivados de cannabis medicinal. A reunião ocorreu às vésperas das primeiras denúncias sobre o esquema de desvios bilionários em empréstimos consignados de aposentados e pensionistas, episódio que, como se sabe, implodiria os planos do grupo.
Conforme mostraram sucessivas reportagens de VEJA, conversas telefônicas em poder da Polícia evidenciam que Marcola e Lulinha eram cobrados frequentemente por Roberta a agendar almoços ou reuniões com Berge. O motivo ficou claro em uma mensagem em que o empresário reclama da falta de resultados concretos da lobista: “tá na folha [de pagamento]? Tem que resolver”. A PF identificou pelo menos 1,5 milhão de reais do Careca do INSS pagos à lobista para intermediar os interesses dele no governo.
Sem conseguir avançar para além de promessas vagas, em março de 2024 Roberta enviou a Marcola uma espécie de passo a passo do que Berge deveria procurar dentro do ministério. Em uma mensagem direcionada à lobista amiga de Lulinha no mês seguinte, Berge afirma que iria “atualizar conversas” com Roberta. Tempos depois de encaminhar a Marcola o rascunho do ato que dispensaria licitação para a compra de material derivado do canabidiol, a lobista diz que mais uma vez havia cobrado Lulinha para ele “se articular logo” dentro do Executivo.






